A obra realizada pelo poder local desde 1976 na criação das infra-estruturas básicas indispensáveis, tais como redes viárias, ETARs, equipamentos de lazer (polidesportivos, piscinas, casas de cultura, bibliotecas) é inquestionável. Hoje são raros os lugares sem electricidade; praticamente todas as sedes de freguesia têm abastecimento domiciliário de água e rede de esgotos. O Concelho do Sabugal também registou este surto de desenvolvimento, embora com décadas de atraso.

João ValenteMas a interioridade do Sabugal traz dificuldades específicas de desenvolvimento, que outros municípios não sentem: com a litoralização demo-económica do país, os municípios do interior, como é o caso do Sabugal, registaram carência em recursos humanos e técnicos e na arrecadação de receitas próprias, em contraponto com os do litoral.
Por outro lado, a desertificação e envelhecimento (a Beira-Interior Norte perdeu, de 1950 para cá, mais de metade da população e tem mais de 40% da população acima dos 65 anos de idade), criaram novos problemas que não existiam há trinta anos: no interior criaram-se pólos urbanos em detrimento das freguesias existentes na periferia dos concelhos (como o Sabugal e Soito, no concelho do Sabugal), o que coloca novas exigências quanto á política de investimentos, os quais têm de ser mais concentrados.
Outro problema destes municípios é a tendência de realização de obras para granjear votos, e assim perpetuar o poder dos autarcas ou do partido, num universo de eleitores com uma qualidade reivindicativa claramente individualista, apenas preocupada na resolução dos problemas pessoais e individuais.
Daqui decorre a dispersão dos investimentos e uma ausência de políticas inter-municipais para tornar mais forte e densa a malha urbana, em que os dois únicos critérios são a satisfação de «clientelas» e a convicção de que cada concelho se pode desenvolver independentemente do contexto geo-económico da região onde se integra.
A falta de preparação dos autarcas também não ajuda. O critério de eleição é o «ser conhecido no concelho» e ter um enraizamento no quotidiano local que os torne iguais à generalidade da população, potenciando assim as suas condições de liderança; nunca se elege por ser política e culturalmente diferenciado.
Daqui o campo de recrutamento dos autarcas ficar amplamente reduzido, não se identificar muitas vezes com as verdadeiras elites locais, reflectindo-se na sua incapacidade de planeamento a médio e longo prazo, depois de realizadas as obras das infra-estruturas básicas do município.
A maioria dos autarcas não sabe como responder à perda de importância da actividade agrícola no seu município, à terciarização do país, e à transformação do tecido produtivo, à fraca densidade demográfica das freguesias periféricas, que são novas realidade a requererem mudanças e respostas inovadoras.
É neste contexto, que se coloca actualmente a problemática das próximas eleições autárquicas no Sabugal. As duas perguntas que gostava de ver respondidas pelos candidatos à Câmara são as seguintes:
É mais útil continuar a dispersar os investimentos por todas as freguesias que integram o concelho, ou ao invés, concentrá-los na sede do município, de modo a fortalecê-lo para que se torne pólo de fixação e atracção da população?
A julgar pela desertificação irremediável do concelho, não será tempo de políticas municipais que invistam no imaterial (formação animação urbana, cultural e desportiva), que reforcem as malhas urbanas ainda existentes?
A resposta a estas questões é complexa, mas exige um outro tipo de autarcas diferente dos que temos elegido; autarcas que arrisquem em outras políticas municipais que passem pela consciência que só há desenvolvimento num quadro sub-regional ou regional e de que as associações municipais são instrumentos importantes para a implementação dessas políticas.
Se as próximas eleições não forem para mudar alguma coisa ao que tem sido a política da municipal, mais vale cruzarmos os braços e conformarmo-nos já com o quadro que Eça dava dos nossos municípios rurais do séc. XIX:
«É a verdade. Há concelhos em que nem a câmara, nem a administração, nem a regedoria se manifestam mais do que em atravessar pomposamente a praça, no dia da procissão dos Passos, fazendo reluzir ao sol o óleo espesso do penteado. A vila está entregue aos casos naturais. Nenhumas obras; as vielas descalçam-se, os muros abatem, os enxurros empoçam. Nenhuma higiene: a imundice apodrenta o sossego, os maus cheiros fazem a atmosfera, os porcos fossam às portas, a praça é uma capoeira pública. Nenhuma polícia; no mercado a desordem, na taberna o jogo, nas esquinas os bêbados. A administração namora as moças, a regedoria barbeia os fregueses. Não se cria nada, não se conversa coisa algum. O que há serve tranquilamente para se estragar: desde a escola que vai perdendo as grades. È uma vila que apodrece. Há aí o silêncio dos sítios em que cresce o bolor. Um marchante que passa, uma égua que trota, surpreendem: as crianças escancaram a boca, as autoridades espreitam ao canto. Ninguém é rico, ninguém é vivo. Dizem-se apenas meias palavras e aperta-se apenas meio botão. Não se vive inteiramente, como não se vestem inteiramente os casacos: a vida e os casacos – trazem-se às costas.» Eça de Queirós, in «Campanha Alegre», 1872.
Porque se não houver alguém sem medo e com “ideias novas” que se chegue à frente, caros patrícios, será esta, “mutatis mutantis”, a pasmaceira em que acabaremos por viver!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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