Alimentos biológicos à moda antiga, sem perdas de tempo e dinheiro com entidades certificadoras.

António MouraOs PCBs, parentes próximos das dioxinas, não têm na Europa uma lei eficaz que os controle. Para estas substâncias nocivas ao homem, não existe qualquer garantia de que não venham parar ao nosso prato. As análises aos alimentos mais susceptíveis revelam um risco real. Este composto químico dá origem a diversos derivados de elevada toxicidade e persistência ambiental. Acumula-se em bola de neve ao longo da cadeia trófica até níveis muito elevados nos mamíferos. A exposição crónica a baixas concentrações pode causar danos no fígado, disfunções reprodutivas, debilitação do sistema imunitário, desordens endócrinas e neurológicas e desenvolvimento infantil e intelectual retardado.
Este é apenas um entre milhões de elementos nocivos à saúde, resultantes desta era de frenesim predatório, em que a identificação e resolução dos problemas de saúde pública é quase sempre reactiva e não preventiva. A velocidade na criação de novos estratagemas de obtenção de mais-valias é directamente proporcional ao nível de ansiedade com que a sociedade devora, numa vã tentativa de apaziguamento. Frequentemente ficamos mais pobres proporcionando mais-valias a alguns importadores de bugigangas.
A troca directa de alimentos entre pequenos produtores apostados em obter de modo sustentável alimentos de qualidade será a breve trecho uma saudável inevitabilidade no mundo rural, uma ajuda complementar ao orçamento familiar, e um modo de vida que o actual modelo de desenvolvimento único faz renascer das cinzas.
Comer bem, evitando a ingestão de alimentos que por contaminação cruzada, chegam hoje de forma insuspeita aos nossos pratos, está ao nosso alcance. Os mais sensibilizados por esta questão, que possuam a abertura de espírito mais própria do mundo urbano e o conhecimento da terra do mundo rural, darão o impulso inicial. A associação voluntária de agentes de troca agregados por um ideal dará a força que por vezes a razão não tem.
Sendo já uma realidade nalgumas comunidades, onde as excentricidades iniciais de sonhadores cosmopolitas deram origem a estruturas funcionais e adaptadas às especificidades locais.
Ninguém espera revolucionar as estruturas existentes de produção e comercialização em massa de produtos alimentares. Aquilo que esses pequenos grupos procuram fazer, é transformar o seu próprio mundo a partir deles próprios, impulsionados não tanto pelos instintos do corpo mas por sentimentos da alma. Mas talvez por isso mesmo, sejam eles até mais letais para a matriz de desenvolvimento instalada do que poderíamos imaginar, porque aqueles que realmente podem mudar o mundo não são os que pretendem mudar os outros com discursos emprestados, são os que tendo criado o seu próprio paradigma, o podem por isso mesmo oferecer, sem oratórias evangelizadoras. Quem não possuí, também não pode dar.
O cultivo de espécies vegetais desde sempre utilizadas na agricultura de subsistência, hoje nalguns casos extintas ou em vias de o ser, tem uma enorme importância. A diversidade genética destas variedades é hoje amplamente reconhecida pela ciência como contendo mais elementos de adaptação às anormais instabilidades e flutuações climatéricas. O que também que dizer que as espécies geneticamente manipuladas são as primeiras a tombar, fruto da sua artificialidade genética e fraco poder de adaptação, elas têm de ser permanentemente reinventadas a partir da riqueza de espécies nativas que as grandes companhias de O.G.Ms (Organismos Geneticamente Modificados) ciosamente guardam em banco de dados, para tirar proveito da dependência que vão criando. Tanta energia e tempo gastos, quando podemos utilizar plantas e animais que embora possam produzir pontualmente menos quantidade, tem ainda assim a vantagem do sabor e da garantia de durabilidade ao longo de gerações.
Recorrer sem preconceito a sinergias resultantes da ligação do novo com o velho. Dos novos conhecimentos sobre produção biológica, com saberes antigos orquestrados pela própria terra. Partilhar tais saberes, fomentando a preservação e utilização dos verdadeiros produtos agrícolas desta terra, numa base científica, culminando com a criação de uma bolsa de produtos num site, seria certamente um projecto aliciante num mundo cada vez mais massificado pela corrida ao argumento económico.
«Caminho sem Percurso», opinião de António Moura

mouramel@sapo.pt

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