Enquanto trabalho, costumo assistir ao programa «Praça Pública», que dá todos todas as manhãs na SIC Notícias e que invariavelmente é o desfiar de um rosário de desabafos e frustrações dos telespectadores contra os políticos em geral e o governo em particular.

João ValenteI – Um destes dias, o tema era o preço especulativo dos combustíveis, em contra ciclo com a descida do crude. A generalidade dos telespectadores manifestou o seu desagrado, protestou com a ineficácia da autoridade da concorrência, chamaram aldrabões e ladrões aos políticos, chegando um deles, a reclamar inclusive, que tinha de haver uma nova revolução para «pôr isto na ordem».
Depois as notícias trouxeram-me à realidade: Recente sondagem, concluía que o governo se mantinha na fasquia dos 40 por cento das intenções de voto; a oposição na mesma, exceptuando uma insignificante subida do Bloco de Esquerda.
Pelos vistos, neste cantinho à beira-mar plantado, os nativos só têm conversa. Quando toca a agir, «tudo fica na mesma, como a lesma!

II – Um agrupamento aqui das redondezas e com cerca de 120 professores, nas recentes manifestações e greves registou uma adesão de cerca de 90 por cento.
Há dias, soube que, convocando-se os docentes para votarem a moção de suspensão da avaliação, no que precisavam do voto favorável de dois terços dos docentes, de 120, compareceram cerca de 60 professores; desses, 40 abstiveram-se; e os restantes 20 votaram a favor, pelo que a moção não passou.
Os mesmos professores que recentemente se manifestaram e fizeram greves maciças contra a avaliação, não se pronunciaram, ou abstiveram-se depois!
Infelizmente há por aí muita gente assim; são trutas mariscadas… Nem truta, nem marisco. Uma pouco de cada coisa… E nada de coisa nenhuma!

III – Há dias, cruzei-me, na paragem da rodoviária, com um meu antigo aluno de economia. «Ia de trouxa aviada», disse-me ele, «para a Suíça, onde tinha uns primos». E Perguntando-lhe se aos trinta e um anos não seria tarde para emigrar, veio a resposta pronta:
– E aqui, s’tor, que futuro há?

Epílogo – Ao almoço, contou-me a minha filha mais velha, que a irmã de uma colega foi para a Suécia num programa de intercâmbio, por dois anos. Comentou ainda, que a tal irmã da colega ficou numa família de acolhimento, mas o governo sueco impôs um quarto com casa de banho privativa e outros requisitos há referida família; depois, deram-lhe a escolher entre três empregos em part-time, para completar a bolsa. Breve silêncio. Perguntou-me:
– Quando acabar o liceu, posso ir também para um desses países?
Argumentei com as inevitáveis saudades; que me custaria muito a separação, ainda que temporária. Aí, ela rematou:
– E que futuro há aqui, pai?
Então lembrei-me do programa da SIC Notícias, do meu ex-aluno de mala aviada para a Suíça, da cobardia dos professores do tal agrupamento, e já não tive coragem para contra argumentar!
E pensei: Como pudemos nós deixar que isto chegasse a este ponto?
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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