Nas aldeias arraianas de antigamente o Entrudo era tempo de folguedo e reinação. Os povos divertiam-se e comiam à tripa forra, pois a seguir vinha o tempo Quaresmal, marcado pelo recolhimento e pela austeridade.

Carnaval no Sabugal, GuardaO severo ambiente aldeão era transformado nestes dias do Entrudo, em que o costume mandava «abocanhar» aqueles que durante os últimos tempos tinham vivido situações susceptíveis de serem caricaturadas. A este costume antiquíssimo chamavam «chorar o Entrudo» e era normalmente protagonizado pelos jovens da ronda.
A coberto do escuro o falar alto dos moços cortava o silêncio da noite, com ditos mordazes a roçar o indecoro, que ridicularizavam algumas pessoas previamente escolhidas. Estes ditos que também eram chamados de entrudadas ou choradeiras, deixavam muito envergonhados, quando não enraivecidos, os seus destinatários, pondo porém a bom rir a maior parte da gente.
Outro costume antigo, que o tempo há muito levou, eram as cacadas, bogalhadas ou paneladas. Grupos de jovens, transportando um cântaro velho cheio de cacos e bogalhas dos carvalhos, procuravam casas cujos habitantes estivessem distraídos, de volta do lume. Então abriam as portas e mandavam de rompante com o cântaro, produzindo o efeito de uma bomba e assim assustando as pessoas.
Nalgumas aldeias os jovens divertiam-se com o julgamento do galo. Um grupo de foliões simulava uma audiência em que o réu era um galo. O escrivão lia o terrível libelo em que o Senhor Dom Cantante era acusado de várias faltas, referindo-se jocosamente a várias pessoas da comunidade. Depois o galo acaba invariavelmente condenado à morte. Antes de ser executado eram relatados os haveres que o condenado deixava a este ou àquela da aldeia, ridicularizando os visados.
Também havia as alforjadas, antecedente dos desfiles carnavalescos do tempo actual. Alguns foliões vestiam-se com roupas velhas e rotas, assim percorrendo as ruas, por vezes montados em burras devidamente ajaezadas. Enquanto percorriam as ruas diziam pulhas, procurando ridicularizar algumas pessoas.
Entretanto os tempos mudaram. Com a influência do Carnaval carioca, que se tornou referência universal, chegaram os desfiles carnavalescos, ou os corsos. Se é verdade que pelas nossas terras nunca tiveram forte implementação, o certo é que se tornaram na manifestação que vai acontecendo um pouco por todo o país, em detrimento do Entrudo antigo, que ficou esquecido. A bem dizer só a cidade da Guarda pega na tradição e realiza regularmente uma recriação do jocoso julgamento do Galo através de um curioso desfile que percorre as ruas da cidade.
Entre nós apenas a freguesia raiana de Aldeia do Bispo, mantém uma festividade com reminiscências no espírito do velho Entrudo. Em três dias recriam-se algumas manifestações antigas, como o roubar dos carros de vacas e de burros, os jogos tradicionais, o aguiguiar dos moços da ronda e até a degustação do bucho e do caldo das baginas secas.
Paulo Leitão Batista