Houve um tempo em que as aldeias históricas do Interior tiveram todo o protagonismo, aproveitando os apoios financeiros para se requalificarem. Mas após um período de forte dinamização, eis que encalharam e perderam o fulgor. Sortelha é bem o exemplo desta triste realidade.

Muralha de SortelhaDiremos até que Sortelha nem chegou a aproveitar convenientemente as potencialidades decorrentes de ter integrado o naipe das dez aldeias históricas beiroas. É certo que viu recuperada a sua matriz antiga, tornando-se uma das melhores jóias históricas da região. As obras de requalificação corrigiram alguns sinais de modernidade, fazendo sobressair o traço antigo. Reergueram-se ruínas históricas que o tempo e a incúria haviam derrubado e melhoraram-se os acessos.
Mas nunca se apostou devidamente na animação. Noutras terras, algumas até de menor potencialidade, recriaram-se feiras medievais e cortejos antigos, organizaram-se festivais de música e de teatro ao ar livre, promoveram-se colóquios e conferências temáticas, assim captando visitantes e potenciando os negócios dos que ali quiseram investir.
Se, ainda assim, muitos vieram de longe em busca da vetusta Sortelha, cujo castelo altaneiro faz lembrar os castelos dos contos de fadas, a triste realidade de hoje é que esse fluxo esmoreceu e parece estar à beira de se extinguir. Fecharam-se negócios entretanto abertos, como restaurantes, comércios e até casas de turismo de habitação. Iniciativas como o Festival Iberfolk ou os encontros culturais sobre Miguel Torga, que persistem, não conseguem inverter uma tendência que há muito se vem sentindo.
Não basta sentarmo-nos à espera que nos cheguem as visitas. Não basta ter pedras antigas, monumentos impressionantes, ruelas fundas e esconsas e miradouros de vistas amplas. Para que Sortelha impressione os que a visitam, a ponto de lhes deixar vivo o desejo de um rápido regresso, é necessário inovar.
Bem parece andar Trancoso, que se mostra a cada momento, numa aposta na captação de mais e mais visitantes. Exemplo disso foi a presença na última edição da Bolsa de Turismo de Lisboa. O stand tinha como cenário as muralhas medievais, iluminadas e sobressaindo do fundo negro que as envolvia. O visitante sentia-se abrangido pela história e, impressionado, parava e observava. E onde outros ofereciam apenas folhetos desdobráveis ou mapas assinalando percursos, Trancoso vendia, a preço simbólico, pequenos livros com as profecias do Bandarra.
Assim se aposta na afirmação de uma terra que tem potencialidades e que aproveita a história e os seus valores culturais para se promover e continuar a ser um destino para muitos.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

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