Muito se tem escrito, sobre a história da nossa terra e região, algumas vezes com fundamento, outras especulando. O pior é quando se aventam hipóteses não documentadas e sucessivos escritores as repetem, tornando-as em quase verdades, que outros posteriormente repetem.

João ValenteSão exemplos disso, o Rio Cesarão como derivando de Júlio César, a pia baptismal da Senhora do Castelo como sendo datada do paleo-cristão, as singulares Capeias Arraianas, como reminiscência étnico-cultural da dominação Leonina, talvez com origem em lutas medievais entre o povo e cavaleiros.
Assim sendo, também eu vou especular, quanto mais não seja, para contrapor a posições «tradicionalmente» veiculadas, agradecendo desde já as correcções e críticas das pessoas mais autorizados na matéria, que tenham amabilidade de se prenunciar.
É sabido que os Romanos começaram a conquista da Península a partir do ano 218 a.C., e foi só Júlio César, então Pretor da Lusitânia, que por volta do ano 61 a.C., após 150 anos, pôs fim aos periódicos levantamentos dos povos autóctones. Por isso as guerras de resistência à conquista romana, não se resumem a Viriato ou Sertório e têm um substrato étnico e sócio-cultural muito complexo, que resumiríamos assim:
Deixando de lado as descrições de Plínio, Frei Bernardo de Brito, inscrição da ponte de Alcântara e outros, resumidamente, os Lusitanos estendiam-se desde a Margem Ocidental do Rio Côa até ao mar, com o Douro a estabelecer o limite da fronteira norte, dedicando-se fundamentalmente à pastorícia de gado ovino e caprino; os Vetões, fiéis aliados destes, estendiam-se da Margem Oriental do Côa pelo interior da actual Província Salamanquina, dedicando-se também à pastorícia, mas de gado bovino e porcino.
Os costumes e religião destes dois povos de raiz celtibera, eram basicamente os mesmos, com adoração do sol, lua, elementos da natureza, como cursos de água e árvores, adivinhação nas entranhas de animais, grandes hecatombes sacrificiais, transumância, herança dos filhos primogénitos, pilhagem em bandos, jogos colectivos de guerra, campanhas de pilhagem., etc.
Na arte, além dos frugais ornamentos de uso pessoal, de culto e combate, levantavam altares de culto, piras de sacrifício, e representavam vários, deuses, entre os quais o sol, com círculos concêntricos, a lua em forma de pendentes, amuletos, elementos decorativos de origem celta, etc.
Da procura de pastagens para o gado resulta a transumância, que originou consuetudinários direitos de passagem (exemplo das canadas em Espanha), e de pastagem (na Andaluzia e Alentejo, Estrela e Douro) que se mantiveram mesmo em períodos de guerra (ocupação romana, árabe, reconquista, idade média até séc. XIX) e locais de acampamento de pastores (as malhadas, como Malhada Sorda, Almeida; ou Malhada dos Castelhanos, na Estrela, onde ainda se conta na tradição oral o episódio da refrega com os pastores do mosteiro de Ouguela, Espanha) e de passagem do gado entre as serras (os portos, como Porto de Ovelha, Porto da Carne etc).
Na primeira fuga de D. Quixote, no contexto do funeral de um pastor morto pelo seu amor não correspondido a uma bela camponesa, descreve Cervantes o modo de vida destes pastores transumantes, dos seus acampamentos, dos conflitos de propriedade com as populações locais e que eram ainda constantes no séc. XVI.
O sistema hereditário entre os celtas, baseado na progenitura, provocou grandes grupos de deserdados em bandos de salteadores ou o alistamento mercenário a soldo de cidades do sul península, entre as quais, as colónias cartagineses. Um grande contingente de Lusitanos e Vetões, chefiado por um outro Viriato, integrou com assinalável êxito as hostes de Aníbal Barca, na segunda das guerras púnicas.
As lutas dos lusitanos contra os Romanos (que traziam um conceito de propriedade individual, conflituante com o status quo vigente), visavam assegurar os direitos de pastagem a Sul, na actual Andaluzia. Por este motivo a resistência foi tão longa e contou também com o levantamento dos povos autóctones do Sudoeste Peninsular.
Mais tarde, a instituição dos cavaleiros vilões nos primórdios da monarquia, teve também como objectivo acompanhar e proteger os movimentos de transumância para Sul. As posteriores algárias da reconquista, coincidiam amiúde com os períodos de transumância entre Abril e Setembro de cada ano, que visavam proteger, a isso não sendo alheio os nossos primeiros reis, terra-tenentes e ordens religiosas e militares serem também proprietários de grandes rebanhos (lembro como exemplo o testamento de D. Sancho I, que legou muitas cabeças de gado a conventos).
Foi neste caldo, de matiz sócio-cultural celtibero, conceito de propriedade, sistema hereditário, da transumância, banditismo ou mercenarismo, que resistiram os lusitanos 150 anos, sob o comando de vários chefes além de Viriato e Sertório, também conhecidos, como Púnico Cesari e outros.
Por tudo isto, abstraindo das consequências de uma posterior influência moçarabe (Jimnez do séc. IX a X encontrado na Santa Marinha, Vilar Maior) e do possível repovoamento por colonos galegos nos tempos de Leão (provado pelo falar peculiar que ficou no Vale do Elges), várias dúvidas me atormentam particularmente:
A pia baptismal que se encontrava na Senhora do Castelo, pela peculiaridade dos seus elementos decorativos (círculos concêntricos e cordão em forma de serpente, possivelmente de origem celta) não terá sido um caldeirão sacrificial celta, adaptado a posterior culto cristão?
Uma pessoa amiga, estudiosa das religiões da antiguidade levanta a hipótese de os círculos, também presentes nas civilizações Cretense e Fenícia, bem como de vária religiões orientais, serem druidas e semelhantes as do santuário proto-romano de Panóias.
Que excitação não seria, os nossos avós terem sido baptizados num objecto de origem pagã, ponte entre os a religião antiga e nova!
O Rio Cesarão, não radicará antes no nome do chefe Lusitano Cesario, que no genitivo Cesarionis é até a raiz mais directa, por catarse e nasalação da palavra Cesarão?
O singular gosto pelas touradas das gentes transcudanas, mais próximo das do outro lado da fronteira, não terá origem na singularidade da pastorícia dos Vetões, que diversamente aos lusitanos, privilegiava o pastoreio intensivo do gado bovino e porcino?
O encerro, o forcão e o desfile com alabardas das capeias, não remontará mais à condução colectiva do gado, aos desfiles guerreiros acompanhados de sacrifícios de animais, dos povos pré-romanos do que às lutas medievais do povo contra os cavaleiros ou na mais recente ida dos mancebos às sortes?
Responda, quem souber e puder!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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