Para mim os dias de Natal e de Ano Novo são, acima de tudo, dias da solidariedade humana.

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Há vários anos, uma familiar minha que vivia sozinha, dirigiu-se ao comércio onde era cliente há várias dezenas de anos, e bem conhecida do dono do pequeno comércio, colocou em cima do balcão açúcar, arroz, farinha e um frasco de veneno para os ratos. Quando ia pagar disse ao dono da loja «Levo só o veneno, pois já não vou precisar do resto.» Dois dias depois esta senhora foi descoberta morta na sua cama…
Peço desculpa de contar esta história triste, mas verdadeira, nestes dias festivos, mas ela leva-me directamente à minha reflexão: O dono desta loja conhecia perfeitamente a senhora, conhecia todos os seus familiares, mas, a insensibilidade humana que parece ter sido erigida como padrão das nossas vidas modernas, levou-o a nada fazer.
E nestes dias por muitos dedicada à família, não posso deixar de chamar a atenção para este fenómeno anti-social que nos corrói e que começa mesmo dentro da própria família.
E permitam-me, ainda, uma outra história verdadeira. Quando era vereador em Vila Franca de Xira, uma jornalista contactou-me, perguntando-me se não achava que a Câmara devia fazer alguma coisa por uma pessoa que vivia numa casa sem condições. Respondi que sim, mas perguntei-lhe se já havia feito a mesma pergunta à família da senhora.
Na verdade, as questões de solidariedade social devem começar na nossa própria família. E apesar das reformas baixas, como muitos dos nossos pais e avós hoje têm, os primeiros responsáveis pela qualidade de vida dos mesmos devemos ser nós, os filhos e os netos, e não o Estado.
Uma outra dimensão é a da vizinhança. Ainda sou do tempo em que vizinho era sinónimo de amizade, de convivência na rua, de entreajuda. Esta forma de solidariedade é hoje ainda mais necessária. Cada um de nós tem o dever de estar atento ao que se passa à nossa volta. E se um vizinho passar fome, ou viver completamente isolado e só, ou tiver problemas de saúde, este deve ser um problema de todos e, de uma maneira ou de outra, os vizinhos devem ser os primeiros a procurar minorar a situação daquele ser humano.
Por fim, uma última reflexão. Que sentido de vida estamos a dar aos nossos filhos? Estaremos a ensinar-lhes que o importante é ser e não ter? Estaremos a dar-lhe lições de solidariedade humana ou a criar seres isolados, vivendo para o seu bem-estar, indiferentes ao que se passa à sua volta?
Proponho a todos que quando estiverem em família, guardem um momento para pensar se têm sido solidários como os vossos, se, por vezes o lufa-lufa da vida não vos levou a esquecer os pais e avós, se tudo fizeram para ajudar o outro, se estão a contribuir para que os vossos filhos se transformem em seres humanos de bem e solidários.

ps. Havia no Sabugal, e penso que em algumas famílias tal se mantém, a regra de na manhã de Ano Novo, a primeira pessoa a entrar na casa fosse um homem que, ao entrar com o pé direito à frente, dizia em voz bem alta «entradas do novo, saídas do velho», sendo presenteado com uma qualquer bebida e comida. Era um uso tradicional que dava sorte àquela família para o ano que chegava. Eu ainda o faço na minha casa…
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

rmlmatos@gmail.com

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