Desde os bancos da escola primária que a música me marcou. Não consigo explicar isso, mas acho a música uma das artes mais fantásticas da humanidade. Para mim a música é muito mais que simples entretenimento. Não conseguiria, pura e simplesmente, viver sem música. Sou, sobretudo, um amante de música pop (no sentido lato, ou seja popular), uma vez que não me considero muito versado em música mais erudita.

Joao Aristides DuarteLogo na escola o meu professor (professor Abadesso, natural de Castanheira-Guarda, que foi longos anos professor no Soito) costuma cantar com os alunos o Hino Nacional e a canção infantil «O Nosso Galo é Bom Cantor». Não que eu tivesse algum jeito para cantar, mas nunca mais esqueci.
No Colégio do Soito, onde andei meia-dúzia de anos a estudar, tínhamos aulas de Canto Coral. O professor desta disciplina era o padre Luís, na época pároco na Bismula.
No Natal o Colégio costumava organizar uma Récita, que tinha lugar no Salão Paroquial. Esta incluía uma série de sketchs, normalmente humorísticos e canções que o Grupo Coral do Colégio cantava. Antes da formação do Grupo Coral, o padre Luís costumava escolher os melhores para essa função. Lembro-me bem de ter sido eliminado logo à primeira. Nunca pertenci a esse Grupo Coral, por total falta de jeito para as cantorias, mas ainda hoje recordo as canções que o Grupo cantava, nessas Récitas.
Nas aulas de Canto Coral o padre Luís costumava trazer uma série de discos (LP’s que rodavam a 33 RPM) para ouvirmos e depois cantarmos em coro. Uma das canções que nós cantávamos, muito antes do 25 de Abril de 1974, era a «Grândola, Vila Morena» do José Afonso. Não foi surpresa nenhuma, para mim, a canção-símbolo da Revolução. Já a conhecia há um par de anos.
Durante a Revolução houve muitas canções que, de repente, saltaram para as ondas da rádio, que eu desconhecia.
Antes, o Festival da Canção mobilizava verdadeiras multidões. Também assisti a alguns Festivais RTP, nos finais dos anos 60 e início dos anos 70, uma vez que já tinha televisão em casa dos meus pais.
Cancioneiro PopularFoi nesse período que ouvi na rádio nomes como o GAC (motivo de crónica anterior, a propósito de um concerto no Soito, em 1975), Sérgio Godinho, José Mário Branco, etc., etc.
Depois seguiu-se o período da descoberta da música rock portuguesa, nos Bailes de Finalistas, na Guarda ou no Sabugal, onde vi grupos fantásticos como os Psico, Elo, Arte & Ofício, Ananga – Ranga, Hosanna, os Faíscas, etc.
Esta foi uma época fantástica. Quim Barreiros já andava por aí (iniciou a sua carreira em 1971), mas não consta que nenhum estudante tivesse a ousadia de dizer para ser contratado para animar uma festa estudantil.
Mas, sem nunca deixar para trás a restante música portuguesa, nomeadamente a tradicional, e o pop/rock internacional.
Descobertos nomes como Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Quadrilha e outros da mesma linha, mais moldei o gosto pela música nacional.
A colecção das recolhas de Michel Giacometti, um dos maiores (senão o maior) dos pesquisadores da nossa música tradicional foi outro dos motivos que me leva a proclamar que Portugal tem das melhores músicas do mundo. Um dos temas recolhidos por Giacometti e que consta do livro «Cancioneiro Popular Português» foi «Azeitona Cordovili», de que existe uma versão em música de câmara por parte do seguinte leque de intérpretes: Coro de Câmara e Orquestra de Instrumentos d’Arco; Orquestra da Fundação Musical dos Amigos das Crianças; Leonardo de Barros, direcção; Victor Paiva, direcção coral; Dimitrinka Dontcheva, piano; Vasco Gouveia, flauta; Manuel Lopes da Cruz, oboé. Este tema foi recolhido em Quadrazais. Deve ser um motivo de orgulho de todos os sabugalenses ter tido um tema do seu cancioneiro incluído nesse livro essencial.
Arte e OficioFoi assim, numa evolução normal, que surgiu o boom do rock português, em 1980, através de Rui Veloso (a primeira cópia vendida em Coimbra do LP «Ar de Rock» do Rui Veloso foi a mim, pelo menos na Valentim de Carvalho, ainda estavam os discos no caixote). E veio a descoberta dos GNR, Rock & Várius, UHF, Xutos & Pontapés, Salada de Frutas e tantos outros, alguns dos quais tive oportunidade de ver ao vivo.
A evolução da música (sobretudo nacional) teve o seu percurso que segui atentamente.
A descoberta dos tesouros escondidos da música portuguesa (actualmente a música que prefiro) veio, também, naturalmente. Embora eu não seja daqueles que gostou de rock, quando tinha 18 anos e agora (porque tem perto de 50) tem que gostar de fado. Quando eu tinha 18 anos gostava de rock, sem dúvida, mas já apreciava fado.
Hoje tento descobrir o que posso da música nacional, sobretudo dos anos 60 e 70, a qual me passou ao lado, porque era impossível conhecer tudo.
Um bom ano de 2009 para os leitores deste blogue, com muita música portuguesa. Os «Concertos Míticos» irão prosseguir.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

akapunkrural@gmail.com

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