Na Casa das Beiras continuaram as reuniões da Comissão Instaladora, trabalhando nos estatutos e discutindo outros assuntos de interesse para a Casa.

Esteves Carreirinha - Ecos da AldeiaDecorrido o Magusto em 10 de Novembro de 1974, foi feito o seu balanço, que resultou em mais um grande êxito, com a inscrição de novos sócios, mediante quota de 100 escudos anual, tendo-se distribuído o projecto de estatutos, já aprovado, para avaliar da sua aceitação, sendo a opinião geral favorável e considerado ajustado, pelo que se concluiu na necessidade de angariar fundos para pagar a publicação dos estatutos, bem como a escritura, ficando o Dr. Seabra de encontrar um Notário.
Apesar de mais um êxito, nada de mais relevante aconteceu até à data da escritura, altura em que as dificuldades se avolumaram, tendo a Comissão Instaladora, nesta fase, travado uma luta tremenda, face às tentativas de ocupação das nossas instalações, como veremos adiante.
PlacaLegalizada a Casa, havia a necessidade de se trabalhar no sentido de haver eleições para os corpos gerentes, continuando a procura de um espaço, surgindo em 18 de Março 1975, uma proposta do Dr. Seabra com o arrendamento do 2.º andar para sede da associação. Negociou pessoalmente, uma renda de 6000 escudos, aumentando depois 1000 escudos em cada ano. Esta verba era avultada e proibitiva, mas face às renitências de todos os outros, o Dr. Seabra propôs instalar, provisoriamente, um lar em duas das salas, que estavam separadas por uma porta envidraçada. A proposta não mereceu aceitação unânime, mas foram-lhe dados plenos poderes para negociar. Estas peripécias serão relatadas num próximo escrito.
Na reunião de 4 de Abril, o Dr. Seabra disse ter assinado contrato-promessa de arrendamento do 2.º andar. Avisou a Câmara de Lisboa do aluguer, para que o andar saísse da lista de casa devolutas. Isto provocou uma corrida de gente que queria ocupar a casa. Um grupo tentou mesmo ocupá-la à força, arrombando a porta. O Dr. Seabra acendeu lá um candeeiro, que ficava aceso toda a noite, para dar a perceber que o andar já estava ocupado. Instalou mesmo lá, uma empregada da sua casa de repouso, que mantinha a luz acesa, abrindo e limpando as janelas, de dia, para ser vista.
O advogado do senhorio e o Dr. Seabra deslocaram-se à Câmara Municipal de Lisboa, pondo um traço vermelho em ziguezague sobre a casa, em vez de um traço grosso, como estava determinado. Na Junta Freguesia de Arroios também puseram um traço azul débil e na Junta de Freguesia do Alto do Pina, nada conseguiram.
João Leitão BatistaAinda neste dia, de manhã, após nova tentativa de ocupação, apareceu um polícia que queria alugar a casa a familiares. A empregada do Dr. Seabra abriu-lhe a porta e chamou-lhe a atenção para um papel colado na porta, indicando que a casa pertencia à Casa do Concelho do Sabugal, sendo ela empregada do Sr. Presidente. O polícia pediu para ver o contrato de arrendamento, respondendo-lhe a dita, nada saber sobre isso.
Durante a semana seguinte continuaram as ameaças de ocupação, por gente que considerava a casa desabitada, pelo que em 8 de Abril decidiu-se passar a fazer as reuniões na novíssima sede da C.C. Sabugal. Foram pedidos orçamentos para a instalação eléctrica, mas como eram tão elevados, nenhum foi aceite.
Na reunião seguinte, o João Leitão ofereceu uma placa com o nome da Casa, que foi colocada na porta.
É preciso notar, que durante este período conturbado, era hábito a ocupação de prédios ou andares devolutos, coisa normal na época. Em relação à Casa é justo salientar, que o Dr. Seabra travou uma luta tremenda nas Juntas de Freguesias atrás referidas, acrescida ainda da Freguesia de S. João de Deus e com as Comissões de Moradores, visto que havia uma grande corrente para nos ocuparem a Casa, porque argumentavam, não se justificava uma casa para divertimentos, numa altura que havia tanta falta de habitação. Foi preciso uma explicação convincente do Dr. Seabra, provando-lhes que a associação se destinava a outro fim social diferente, porque se propunha colaborar nos interesses morais e materiais de um dos Concelhos mais atrasados do País, levando a melhor, dentro da legalidade, sobre todos os que tentaram as ocupações.
Assim decorreu esta luta durante algum tempo, com o resultado que se conhece, a casa sobreviveu a esta fase deveras complicada.
«Ecos da Aldeia», opinião de Esteves Carreirinha

estevescarreirinha@gmail.com

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