Eduardo Sucena, escritor natural da Guarda, na companhia dos seus conterrâneos Fernando Pinto Ribeiro, poeta, e o irmão deste, coronel Carlos Silva Ribeiro, ilustrador, aceita uma conversa informal. O local de encontro é no Restaurante Possolo, em Lisboa. (Entrevista de José Leitão Baptista.)

eduardo-sucenaO escritor retoma o historial biográfico:
Enfim, fui para a PJ e aí permaneci durante 16 anos. Naquela altura éramos poucos, cento e tal em Lisboa. A progressão de carreiras era limitadíssima. Quase se pode dizer que só se subia na carreira depois de uma longa espera, quando alguém morresse ou fosse para a reforma. Por isso, arranjei um emprego que me levou a Angola, onde permaneci cinco anos, de 1967 a 1971. Visitei ainda São Tomé, mas acabei por regressar a Lisboa. E é esta, essencialmente, a minha biografia.
Não voltou à PJ?
Não. Pedi a demissão. Naquela altura eu queria a licença ilimitada, mas não a concediam. No ano em que eu saí, foi uma sangria: saímos, ao todo, uns setenta.
De onde lhe vem o interesse cultural que manifesta e de que tem dado provas? Como é o seu convívio com intelectuais da Guarda?
Em Lisboa trabalhei no sector privado e, às tantas, integrei-me no grupo «Amigos de Lisboa» e comecei a conhecer a Lisboa que eu não conhecia. Antigamente, o meu conhecimento da cidade não diferia do da maior parte das pessoas: o Rossio, os locais de maior convívio, mas tudo pela rama. Comecei depois a ver Lisboa mais em pormenor. A minha ligação aos «Amigos de Lisboa» resultou de um jornal que anunciava uma visita cultural. Mostrei o meu interesse e foi assim que, mediante outras visitas e investigações, passei a dedicar-me à história de Lisboa. Nessa altura era presidente da instituição um homem de grande categoria, o Prof. Dr. Cândido de Oliveira, catedrático de Medicina e que chegou a director da Faculdade. Foi ele que me convidou a integrar os órgãos directivos, por notar o meu interesse pela cidade. Não me mostrei muito disponível, porque estava ainda em actividade, mas tanto insistiu que acabei por ceder e ocupei o cargo de secretário-geral dos «Amigos de Lisboa» durante largos anos. Na revista que editávamos – «Olisipo» – comecei a escrever sobre a cidade.
Acabou por gostar tanto de Lisboa como da Guarda?
São amores diferentes. Embora tenha orgulho nas minhas origens, reconheço que Lisboa deu-me o que a Guarda nunca me deu. Em Lisboa dediquei-me a actividades que na Guarda nunca conseguiria realizar.
E que vantagens lhe trouxe Lisboa?
A possibilidade de publicar livros, fazer conferências, dedicar-me a uma vida cultural activa; e tive o gosto de ver reconhecido o meu trabalho com várias distinções, como o Prémio Municipal Júlio de Castilho de Olisipografia.
E o Fado? Como aparece o interesse pelo mesmo, que o leva a uma dedicação exaustiva?
O conhecimento da cidade levou-me inevitavelmente para esse caminho. Aqui o nosso amigo Fernando Pinto Ribeiro, que andou envolvido na boémia lisboeta, conhece bem esse lado de Lisboa. Eu também privei de perto com gente do Fado. Tinha por amigo um homem notável, grande guitarrista, chamado José Nunes. Acompanhou a Amália Rodrigues durante uma dezena de anos ou mais e foi ele que me introduziu no meio. Eu não ligava inicialmente muito ao fado. Enquanto estudante, na Guarda, ia mais para o fado de Coimbra, em virtude da grande ligação Guarda-Coimbra. Mas o José Nunes entusiasmou-me. Frequentei com ele casas de fado e apresentou-me a compositores, letristas e intérpretes. Sabendo que eu escrevia, sugeriu-me que escrevesse sobre o Fado, pois havia muito disparate divulgado e o assunto exigia estudo e seriedade. E assim surgiu o livro «Lisboa, o Fado e Fadistas», que já vai na terceira edição.
Fernando Pinto Ribeiro, poeta letrista, atento especialmente a este assunto do Fado, anuncia ter travado conhecimento, ainda criança, com Eduardo Sucena, na Guarda. Saudavam-se ocasionalmente. O reencontro surgiu de forma acidental, em Lisboa, na Tertúlia Festa Brava. O entrevistado esclarece:
A Festa Brava é uma instituição com sede na Praça da Alegria, vocacionada para o convívio da gente das touradas; mas os toureiros desinteressaram-se e o que acabou por manter essa associação foi o Fado. Aos fins-de-semana ocorriam, e ocorrem, ali sessões de Fado; almoça-se, convive-se e há Fado…
O poeta frisa o reencontro, que ocorreu já depois do 25 de Abril, e a maior proximidade que passou a existir entre conterrâneos. Vem à lembrança o nome da Anita Guerreiro, a fadista que na década de cinquenta cantava frequentemente nesse local. Sucena intervém:
Conheci a Anita Guerreiro no Copus Bar, em Cascais, onde ela cantava nos anos setenta. Mas voltando aos toureiros, nesse tempo havia dois de lide apeada que eram rivais: Manuel dos Santos e Diamantino Viseu. Gostei sempre mais deste último, embora o primeiro fosse mais popular. O Viseu era muito senhor do seu nariz, mas mais artista, suponho.
Fernando Pinto Ribeiro adianta, a propósito, ter escrito o fado Diamantino Viseu, o hino da escola e o dos forcados de Santarém. Na circunstância, Julieta Brigue é também um dos nomes evocados…
A Julieta Brigue? Ela criou o fado Manuel dos Santos.
Sucena remata o assunto da Festa Brava sugerindo um almoço futuro na Tertúlia. Questionado sobre a sua ligação aos intelectuais da velha Guarda e o episódio que ocorreu, enquanto jovem, com o escritor Nuno de Montemor, pormenoriza:
Escrevi sobre Nuno de Montemor quando andava no liceu. Um grupo de estudantes, no qual me integrava, criou o jornal «A Cabra». A Cabra era a sineta que chamava para as aulas os estudantes de Coimbra, comparável na Guarda à Garrida, que chamava os cónegos às rezas. Adoptámos o nome «A Cabra», devido a essa analogia. O jornaleco deu algum brado, com crítica, assuntos vários, larachas, etc. Saíram dez números. É curioso que nas comemorações dos 150 anos do Liceu da Guarda, aperceberam-se da existência desse jornal e telefonaram-me, mostrando interesse numa colecção para efeitos de exposição. Tive em tempos uma colecção que, emprestada, nunca me chegou a ser devolvida. Por isso, informei que a Biblioteca Nacional tinha os exemplares e que eu poderia facultar-lhes fotocópias. Assim fiz e desloquei-me à Guarda para fazer a entrega. Actualmente têm lá um jornal, com o título de «Presse». Trata-se de uma publicação com outro requinte. O nosso jornal começou por ser feito na tipografia de Celorico da Beira, mas como não tínhamos dinheiro para pagar à tipografia, tivemos de mudar de gráfica, passando a ser feito na tipografia de António Chapa, na Rua D. Sancho I, na Guarda. Foi aí que publiquei um artigo sobre Nuno de Montemor.
Conhecia-o pessoalmente?
Conhecia-o de vista. O Café Mondego tinha uma montra grande e havia uma mesa junto a essa montra. Daí víamos quem passava do Governo Civil para baixo. Nuno de Montemor, uma figura castiça, de sobretudo azul bastante folgado, chapéu preto e guarda-chuva, vinha normalmente da Misericórdia, onde era capelão, e dirigia-se para o Lactário. O tal artigo saiu na primeira página. O professor de Canto Coral, João Alberto Faria, director do jornaleco, quis que se fizesse uma edição especial de dez exemplares em papel couché para oferecer a Nuno de Montemor. O escritor terá comentado que o rapaz, autor do artigo, tinha habilidade para a escrita: «Traga-mo cá, que eu quero conhecê-lo». João Alberto Faria comunicou-me o desejo de Nuno de Montemor. Eu era um rapazote. Ele era um escritor de vulto, com obra publicada, e eu sentia algum embaraço. Devia andar pelos meus 16 ou 17 anos. Enfim, lá fui. Recebeu-me com gentileza, como se eu fosse um seu colega das letras. Comprometido com aquela situação, vi-me num ambiente de música clássica, de que ele muito gostava, a tomar o chazinho com ele. «Olha, rapaz, gostei daquilo que escreveste. Tens jeito». E passou a tratar-me como colega. Antes enviara-me já uma carta, carta essa que foi publicada pela revista «Altitude». Depois fui obsequiado com o poema «Vestido de Bebé». A Dra. Dulce Helena Pires Borges, que foi directora do Museu da Guarda, escreveu-me, muitos anos depois, dando-me conta do desejo de criar uma secção no Museu dedicada a Nuno de Montemor. Sabia que eu tinha documentos e pedia-me para os depositar lá. Não depositei. Ofereci ao museu a carta, o poema e livros autografados pelo escritor. Cada vez que ele publicava um livro eu recebia um exemplar com dedicatória. Posso dizer que veio dele o estímulo para eu escrever e saltar dos limites estritos do jornal do liceu.
(Devido à sua extensãoa entrevista prossegue brevemente)
José Leitão Baptista