Eduardo Sucena, escritor natural da Guarda, na companhia dos seus conterrâneos Fernando Pinto Ribeiro, poeta, e o irmão deste, coronel Carlos Silva Ribeiro, ilustrador, aceita uma conversa informal. O local de encontro é no Restaurante Possolo, em Lisboa. (Entrevista de José Leitão Baptista.)

foto-sucena-aEduardo Sucena, conheço-o como amigo, amigo dos meus amigos, nomeadamente do seu conterrâneo Fernando Pinto Ribeiro, aqui presente. Gostaria de trocar impressões consigo, revelando-me aquilo que, no seu entender, possa contribuir para um maior conhecimento de si e da sua obra.
Não vejo grande interesse naquilo que lhe possa dizer de mim. Sei que já escreveu um artigo para o semanário “Terras da Beira” sobre o Fernando Pinto Ribeiro, que é poeta de mérito. Mas eu não sou poeta…
Tem obra publicada, tem um mundo de vivências que vale a pena conhecer… A referência ao seu nome e ligação à Guarda, remete-me para uma casa comercial, a Casa Sucena, que existiu junto do Café Monteneve, perto da Igreja da Misericórdia…
Era a loja do meu pai, de artigos religiosos e papelaria.
Recordo também o nome Sucena relacionado com um jovem que nos anos sessenta frequentava o café Mondego, a Madrilena… Parece-me vê-lo ainda hoje, moderno, de calças boca-de-sino…
Talvez fosse o meu sobrinho, o António José Sucena, filho da minha irmã e que morreu na guerra, na Guiné. Ou então o Mário Francisco, filho do meu irmão, dedicado ao desporto automóvel, aos ralis, com ligação ao Clube Escape Livre. Morreu há cerca de vinte anos. Vinha de Celorico e suponho que terá chocado com outro automóvel.
Esclarecida a referência ao apelido, Eduardo Sucena incita Carlos Ribeiro:
Chegue-lhe, Carlos! Mais um copo. Faça ver aqui ao seu irmão. Você é mais novo.
Eduardo Sucena não se coíbe e bebe também.
Pois aqui o Fernando Pinto Ribeiro veio para Lisboa primeiro do que eu, logo a seguir à guerra, em 1945. Em 1949 vim eu para o serviço militar.
Dirige-se ao poeta e interpela-o:
A propósito do fado «Noites Perdidas»… em que música é cantado? Franklim ou António Maria?
Fernando Pinto Ribeiro esclarece que foi cantado no Franklim e com música de Alfredo Marceneiro. Reservo o assunto do fado para mais tarde e, para manter o rumo da conversa, trago à baila personalidades da Guarda. O poeta lembra-se então de referir o Casimiro e os encómios ao Casimiro como figura típica, numa publicação da cidade, com o que está em manifesto desacordo. Eduardo Sucena corrobora essa posição:
Sabe, as pessoas por vezes empolam os factos. O Casimiro era um simples empregado da Casa Veritas, uma loja idêntica à do meu pai, mas ligada à União Gráfica. Terá arranjado umas coroas para montar aquela papelaria-livraria entre a loja do meu pai e a Farmácia Central, numa área diminuta. Eu era adolescente e cheguei a comprar lá vários livros. Mas o Casimiro, sem desprimor, era apagadíssimo. Apresentaram-no como uma figura castiça da Guarda. Conhecido como caixeiro da Veritas, tornou-se notado por ter montado a Livraria Académica. Para além disso, só o distinguiu o facto de ter sido boa pessoa.
Eduardo Sucena prossegue e generaliza a situação:
Esta gente que actualmente está na ribalta já não conheceu a Guarda verdadeiramente típica. A cidade desse tempo era diferente. Havia características específicas na Guarda da década de quarenta. A partir dos anos cinquenta houve modificações substanciais. Coincidiu com a expansão urbanística para cotas inferiores. A Guarda do nosso tempo era o centro histórico, entre o Jardim e a Praça Velha, incluindo o Bairro de São Vicente; coisa pouca. Quanto ao resto, mesmo o Bonfim, era tudo periférico.
Fernando Pinto Ribeiro, matutando ainda na referência anterior, incide ainda o seu cepticismo na figura do Casimiro, e Eduardo Sucena retrocede:
O Casimiro era um bom homem, repito. Enfim, talvez fosse popular entre a estudantada, mas nada mais. Aliás, o seu estabelecimento não era o único no género. Havia também um em frente à Leitaria Cristal, o do Vinhas, que tinha três filhos: o José e o António já morreram, mas um deles, o Manuel Vinhas, ainda é vivo. Olhem, é camarada aqui do nosso amigo Carlos. Seguiu a carreira das armas, mas na Força Aérea.
Quer referir alguns aspectos da sua biografia, Eduardo Sucena? Como viveu na Guarda e que ligações mantém com a cidade?
A minha biografia é pouco relevante. Resumo-a em meia dúzia de frases. Tive um contratempo de saúde que me levou a repetir o último ano da instrução primária. Aqui o Fernando ainda me visitou enquanto convalescia. Tive uma peritonite e estive quase a ir desta para melhor. Frequentei depois o liceu e cheguei ao ano de 1948 disposto a tentar um curso superior. Tudo se inviabilizou com a minha ida para a tropa. Contrariamente ao que acontecia com a maior parte dos indivíduos da Guarda, que iam para Tavira, para a Infantaria, eu e outro, não sei por que cargas de água, fomos com guia de marcha para Lisboa, para o curso de sargentos milicianos de Cavalaria, no Regimento de Lanceiros 2. Foram dois anos: 1949 e 1950. Acabada a tropa, regressei à Guarda. E por ali estava, sem curso superior, sem emprego…
Eduardo Sucena retoma a narrativa:
Um dia, estava eu no Café Mondego, e um mocinho do meu tempo, o Joaquim Correia de Figueiredo, com quem me dava muito bem, disse-me: «Eh pá, vem no jornal que há um concurso para a Polícia Judiciária!» Eu nunca ouvira falar da Polícia Judiciária. «Mas o que é isso? Não me agrada a ideia de polícia fardado». «Não, pá, esta polícia é à paisana». Enfim, eu polícia fardado não queria, mas como era sem farda, resolvemos concorrer os dois. Meia folha de papel selado, e fizemos o requerimento. Tempos depois, de novo e como sempre no quartel-general do Café Mondego, vem um polícia com uma contrafé para me apresentar na esquadra. Como era normal fazermos umas traquinices, questionei-me sobre o que seria dessa vez. E lá fui. «Você requereu para ir para a PJ. Tem de se apresentar tal dia em Lisboa para fazer o concurso», disse-me o agente que me atendeu. Respirei de alívio. Fui então prestar provas com o meu amigo. Ele, que me incitara a concorrer, chumbou. Eu fui admitido na Judiciária em 1951.
A alusão ao Café Mondego motiva a intervenção do poeta, questionando se não seria propriedade do Balsemão. Sucena responde:
Não. Era do Abel Pereira. Lembro-me que tinha uns azulejos lindíssimos e julgo que os querem recuperar.
Questiona-se a referência a Balsemão, ex-primeiro ministro, mas trata-se obviamente de Balsemão tio, também Francisco. O coronel Carlos Silva Ribeiro traz à baila a casa de fazendas na Praça Velha e a fábrica de lanifícios do Rio Diz, que era propriedade de Francisco Balsemão. Sucena interfere:
Tenho uns escritos para publicar, uma espécie de memórias, em que falo disso. A fábrica era de um Sr. Proença e, com a sociedade que fez, a firma passou a Proença & Balsemão, salvo erro. Esse senhor morava na Praça Velha, onde está hoje o Banco Espírito Santo. O gerente da fábrica era então Alfredo Silva, que morava no palacete da Rua 31 de Janeiro, do lado direito de quem desce.
(Atendendo à sua extensão, a entrevista prosseguirá brevemente)
José Leitão Baptista