José Robalo – «Páginas Interiores»O dia 15 de Novembro é dia maior das festividades da república onde passei grande parte dos meus tempos de Coimbra. «A malta está em festa, com aprovação dos Deuses do Olimpo, celebra-se o XLV Centenário da República.»

Quando uma ilha se afunda
deixa na linha do horizonte a dúvida
e espalha círculos vazios no mar
– que são perguntas diluídas, imagens
de nuvens, sintaxe de silêncio,
deuses perdidos, memórias do esquecimento.
Vasco Pereira da Costa

O convite que me foi endereçado reza ainda, «não faltarão as mais exóticas iguarias regadas pelo divino néctar», o que significa que as honras a Baco vão ser celebradas com um opíparo e etílico jantar.
O centenário da Republica é a oportunidade para reencontrar velhos amigos com os quais partilhei parte da minha juventude numa aprendizagem de valores tais como a solidariedade, liberdade, responsabilidade, porque como dizia um colega republico «o colectivo está em primeiro lugar». As repúblicas em Coimbra são comunidades onde a democracia funciona na sua plenitude, num permanente respeito pelo outro, ou talvez como canta Bernard Lavilliers «sou anarquista uma vez que concebo anarquia como sendo a ordem, sem o poder», porque o que falta à nossa época é a gratuitidade, ou seja, fazer algo sem contrapartidas.
Como vai longe o tempo, do caloiro que desembarcou na Rua da Matemática na alta de Coimbra, onde a cidade fervilhava de ideias e projectos que nunca chegámos a concretizar, num idealismo e irreverência permanente, nos cafés Kalifa e Museu. Para o proprietário do Museu, que apenas via cifrões, desenhámos esta quadra que cantávamos, com prazer acrescido quando este estava presente:

Oh Sé Nova, Oh Sé Nova
Aos teus pés está o Museu
Tem lá um bruto dentro
Que parece um camafeu.

De Coimbra guardo ainda a saudade de alguns amigos, sendo especial a amizade que me ligou ao Zeca Afonso e à sua companheira Zélia, já no final da vida do primeiro. Admirava o seu espírito crítico, o seu inconformismo permanente e até doíam as críticas corrosivas ao então desgoverno socialista. Que diria o amigo Zeca deste socialismo que nos governa? Será que não criaria um novo hino à liberdade, à semelhança do Grândola Vila Morena?
Hoje não vou poder estar presente no repasto com pena minha até porque como diz o convite, seguir-se-á como habitualmente um sarau com «triatro», onde não faltarão as intervenções eloquentes do Vasco Pereira da Costa e do Carlos Alberto Moniz.

:: :: PARA LER :: ::
«Amanhece a cidade», de Vasco Pereira da Costa.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Toda a obra de José Afonso», com um fraquinho pelo Vejam Bem e Cantigas do Maio.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
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