A obra «Grande Cancioneiro do Alto Douro», da autoria de Altino Moreira Cardoso, é o resultado da recolha de música tradicional do Alto Douro, que reúne, em 640 páginas, cerca de 600 canções da Vinha.

Grande Cancioneiro do Alto DouroA obra é composta por uma introdução histórico-literária, onde se insere uma tese demonstrativa da continuidade das cantigas populares de amigo galaico-portuguesas no cancioneiro do Alto Douro, seguida do Cancioneiro composto por cerca de 600 músicas e letras.
Num ensaio introdutório, o autor, antigo tocador de um rancho do Alto Douro e elemento do Conservatório e da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, estabelece e demonstra, em muitas cantigas do Alto Douro, marcas irrefutáveis da sua origem galego-portuguesa, difundida de Santiago de Compostela para Lamego durante as peregrinações e movimentos militares dos cruzados na fundação de Portugal por D. Afonso Henriques e revivificada nas vindimas, após a fundação da Região Demarcada do Vinho do Porto.

Cantar a Vinha


Vinho fino, vinho fino,
de forte, faz-me falar,
faz-me alegre, folgazão,
só me estrova no andar!…

Os olhos da vide choram
lágrimas, de seis a seis:
também os meus olhos choram…
a causa, bem na sabeis!

Debaixo desta ramada
as videiras dão anéis:
por via de ti, menina,
sofro as penas mais cruéis!

Ó ramada, dá-me um cacho,
ó silva, dá-me uma amora,
ó amor, dá-me um retrato:
quero ver-te a toda a hora!

Não se me dá que vindimem
videirinha que eu podei:
não se me dá que outros logrem
quem eu por gosto deixei…

A videira sempre chora
quando a corta o podador:
também eu tenho chorado
com pena do meu amor.

Vinho fino, vinho fino,
de forte, faz-me falar,
faz-me alegre, folgazão,
só me estrova no andar!…

– Ó meu rico regadinho,
que levas no regador?
– Levo o perfume do vinho
para dar ao meu amor.

– Ó meu rico regadinho,
que levas na tua mão?
– Um cacho de malvasia
para dar ao meu João.

Se quereis que eu cante bem,
dai-me uma pinga de vinho:
o vinho é coisa santa
faz cantar delegadinho.

Quem quiser que eu cante bem,
dêem-me vinho ou dinheiro:
que esta minha gargantinha
não é forja de ferreiro.

As soidades são escuras,
ó amor, dá cá a borracha:
se ma deres, dá-ma cheia,
que vazia não tem graça!

Venha o copo, venha o vinho,
venha mais meia canada:
eu cá sem copo não bebo
e, sem vinho, não sou nada!

O vinho é coisa boa,
que nasce da cepa torta:
a uns faz perder o tino,
a outros errar a porta.

Quando me dói a cabeça
e me quer cair ao chão,
bebo mais uma pinguinha,
quer ela caia, quer não.

O vinho das nossas cepas
não é vinho, é licor:
e bebe-se, com prazer,
até no altar do Senhor!

Rapazes, quando eu morrer,
levai-me devagarinho,
fazei-me a cova bem funda,
por cima, deitai-me vinho!

Já comi e já bebi,
já molhei minha garganta,
eu sou como o rouxinol:
quanto mais bebe, mais canta!

Muita gente, por ser velha,
logo sábia se imagina,
o vinho, em novo, é mau,
depois de velho, refina.

São Miguel, o nosso amigo,
é o protector das uvas:
vamos todos adorá-lo
pra termos vinho nas cubas.

aps

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