O concerto de Amália Rodrigues, no Soito, aconteceu no dia 7 de Agosto de 1993, quando a «diva» do fado já contava 73 anos.

Joao Aristides DuarteLembro-me que havia algumas pessoas, certamente pouco informadas, que afirmavam que o espectáculo iria ser um fracasso porque Amália já não tinha voz. Enganaram-se redondamente.
A sua actuação no Soito foi igual a tantas outras realizadas por ela no país ou no estrangeiro. Não foi pelo facto de se encontrar numa zona de província que Amália deixou os seus créditos por mãos alheias e descurou o profissionalismo.
Nessa noite as Festas de São Cristóvão tiveram uma das maiores enchentes de sempre.
Até um grupo de «Amalianos» (fãs incondicionais de Amália Rodrigues marcou presença neste espectáculo, vindo expressamente dos Açores, para esse efeito. Que outro artista se pode vangloriar de ter tido, no Soito, um grupo de fãs vindo de tão longe?
Amália, ao contrário de outros «artistas» da nossa praça muito cotados por algum público, sobretudo feminino e com fama de românticos, fez o «check-sound» à tarde, perante a gente que se encontrava no largo das Festas, sem qualquer problema.
Durante o concerto, que durou mais de uma hora, Amália até teve tempo para contar uma anedota em castelhano e elogiar algumas iguarias do Soito, que comeu numa casa particular.
Amália Rodrigues no SoitoCantou todos os sucessos da sua carreira e encantou, sendo que o público não lhe regateou aplausos. Não estou em condições de afirmar quem eram os guitarristas que a acompanharam, porque não fixei os seus nomes. Mas, com certeza que Amália não deixava de trabalhar com os melhores guitarristas da nossa praça.
No final do concerto Amália subiu ao palco secundário, onde dançou ao som do grupo de baile San Diego (um grupo dos melhores que vi actuar nesta zona e do qual alguns elementos tocam, agora, com Sérgio Godinho), a quem fez um grande elogio, tanto que os músicos ficaram sem palavras.
A imagem que eu guardo de Amália Rodrigues, na sua passagem pelo Soito, é a de uma pessoa simples, humilde e sem tiques de vedeta.
Há uma frase de Amália que resume tudo o que ela queria do seu público: «Preciso de palmas, como de pão para a boca.»
Felizmente, o público presente no concerto do Soito não deixou de apoiar com palmas a sublime prestação de Amália Rodrigues.
O Soito pode e deve, pois, orgulhar-se de ter tido tão ilustre visitante nesse ano de 1993.

Momentos da prestação de Amália, no Soito, podem ser observados nas duas fotografias, da autoria de Manuel Monteiro.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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