Editado este ano de 2008 pela Câmara Municipal do Sabugal, o livro «Celestina», de Joaquim Manuel Correia, é um romance histórico que retrata episódios da última guerrilha carlo-miguelista e que é sobretudo um testemunho etnográfico sobre as formas de vida das populações de antigamente.

Enquanto romance histórico, «Celestina» reporta à época das guerrilhas que na década de 70 do século XIX lutavam por restaurar o regime absolutista monárquico. Em Portugal os revoltosos queriam devolver o trono ao exilado D. Miguel de Bragança. Já em Espanha a coisa era mais dura com a luta pelo regresso do absolutista D. Carlos ao poder.
Na Raia portuguesa as duas guerrilhas ibéricas andavam de conluio por interesse táctico. Aos revoltosos portugueses interessava o apoio do forte exército carlista à causa que queria depor o Rei D. Luís. Aos guerrilhas espanhóis interessava a colaboração dos esconjurados portugueses na camuflagem de alguns agentes de D. Carlos, que aqui aguardavam o momento de passar á acção.
Foi neste contexto que o Padre João de Matos, pároco de Aldeia da Ribeira, cabecilha do movimento português no concelho do Sabugal, pediu ao seu colega padre Manuel que desse guarida a D. Benito, distinto oficial do exército carlista, que estava refugiado em Portugal.
Padre Manuel tinha uma filha, a que chamava sobrinha, de nome Celestina. Tinha apenas 15 anos, mas era muito formosa, a ponto de por ela se apaixonar D. Benito. Nasceu daqui um amor impossível, mas verdadeiramente profundo, o que trouxe imensos problemas ao bom padre Manuel, que queria a sua filha livre das garras do espanhol.
Mas mais do que um romance com enquadramento histórico, o livro é sobretudo um repositório de aspectos etnográficos do concelho do Sabugal. Expressiva é a descrição viva do que foram as Caldas do Cró no segundo quartel do século XIX. Uma estância termal e lúdica, onde as pessoas de teres iam curar-se ou retemperar forças, para ali se mudando durante semanas com as suas famílias. O episódio da pescaria no rio Côa, no açude do Lêndeas, é deveras expressivo. O Bogas e os filhos, experimentados pescadores, entram encarrapatos na água do açude, munidos de redes e de varapaus, e em breve enchem cestos de trutas e barbos para grande admiração dos banhistas do Cró que ali foram em passeio.
Ademais fala-se nas bicas, nos serões da aldeia, nos mercados, nas tabernas, nos variados trabalhos campestres e no que demais caracterizava, à época, a vida nas nossas aldeias. Os quadrazenhos estão sempre presentes, nas aldeias do concelho ou ainda que seja em terras longínquas, vendendo os produtos do contrabando, com sua peculiar expressão linguística.
Joaquim Manuel Correi é mestre na arte de narrar, não lhe escapando pormenores especiais, que condimentam qualquer história. Para exemplo, atente-se a este diálogo em linguagem vernácula, de um mulher com uma criança, querendo que esta lhe veja no livro dos baptizados a idade de alguém:
«- Ó Fresmina! Chama o vosso Gaudêncio, que há-de ler aqui o assento da filha da Ângela, ouviste?
– Ó Gaudêncio! – ouviu-se gritar a Maria Felismina.
Veio o rapaz e Anastácia acercou-se dele, dando-lhe nozes.
– Olha, tu já lês por cima?
– Já se senhora.
– Lê aí nesse livro e vê se achas o assento da filha da Ti Ângela, sim filho?
– Eu cá vejo.
O rapaz gastou uma hora ou mais a desfolhar o livro, procurando.
– Não está, tia Anastácia.
– Leste mal! Deixa cá ver – disse, nervosa, tirando-lhe o livro das mãos e abrindo-o, mas o rapaz desapareceu.
– Ó Gaudêncio, anda cá, não te esgueires.
– Ora! Eu nã no acho lá.»

O livro tem 503 páginas, algumas ocupadas com fotografias de Joaquim Manuel Correia e desenhos seus.
«Celestina» era um escrito inédito do autor das «Memórias sobre o Concelho do Sabugal». O texto foi cedido à Câmara por Natália Correia Guedes, neta do escritor, possibilitando a sua edição por ocasião dos 150 anos do nascimento do autor.
O livro pode ser adquirido no Museu Municipal ou na Casa do Castelo, no Sabugal.
plb