O GAC (Grupo de Acção Cultural) foi fundado em casa de José Jorge Letria, no dia 30 de Abril de 1974, precisamente seis dias após o Golpe de Estado que devolveu a liberdade aos portugueses, então ainda sob a designação de CAC-Colectivo de Acção Cultural.

Joao Aristides DuarteEssa foi precisamente a data em que o cantor e compositor José Mário Branco, um dos mentores do movimento, regressou do seu exílio em França, e além dessa figura da música popular portuguesa estiveram ligados à fundação daquele movimento personalidades como Afonso Dias, Eduardo Paes Mamede, João Loio, Luís Pedro Faro (cuja formação etnomusicológica foi de especial importância para o movimento), Nuno Ribeiro da Silva (que foi Secretário de Estado num Governo de Cavaco Silva), Toinas (Maria Antónia Vasconcelos), o poeta Manuel Alegre e a violoncelista Luísa Vasconcelos, entre outros (muitos deles oriundos da Juventude Musical Portuguesa). Hoje o trabalho do GAC é considerado, pelos especialistas musicais, como fundamental para o enriquecimento da música popular portuguesa.
Algum tempo passado, devido a divergências sobre o seu posicionamento político, o GAC transformou-se em «GAC – Vozes na Luta» e passou a ser uma espécie de frente musical da UDP (União Democrática Popular), tendo os membros das outras organizações políticas abandonado a sua formação. Algumas das suas mais famosas canções eram «Alerta» ou «A Cantiga é Uma Arma».
Não tenho a certeza absoluta, mas julgo que foi em 1975 que o GAC veio ao Soito, em pleno PREC, quando o país estava dividido e a efervescência política estava ao rubro. Deve ter sido por alturas da Primavera, porque a imagem que guardo é de que os campos estavam verdes.
Tinha eu, portanto, 15 anos, mas lembro-me. Andava a estudar no Colégio do Soito, no antigo 5.º Ano Liceal (actual 9.º Ano).
Sei que tudo se passou quando uns rapazes do Soito, que viviam em Lisboa e deviam ser militantes ou apoiantes da UDP, convidaram o Grupo a dar um concerto (na época chama-se «sessão») nesta freguesia.
Sessão dos GAC no SoitoLembro-me de ver uns cartazes com a convocatória para a «Sessão».
Ora, o GAC era um grupo que tinha todas as características para não poder ser bem aceite no Soito, nessa época, uma vez que o Soito sempre foi uma terra muito à direita e o GAC era o representante de tudo aquilo que era combatido pela direita.
O que é certo é que a tal «sessão» lá se realizou no Salão Paroquial do Soito, à tarde, com cenas verdadeiramente surrealistas à mistura.
O GAC era um conjunto de rapazes e raparigas que cantavam. O acompanhamento era feito por violas acústicas.
Cantavam canções revolucionárias, com poemas o mais extrema-esquerda possível e imaginável.
Foi um problema para o pároco do Soito (Padre João Domingos) ceder o Salão e os microfones. Lembro-me de os organizadores terem ido pedir o salão e os microfones e o Sr. Padre não os querer ceder. Com insistência lá acabou por consentir.
Durante a «sessão» o GAC foi cantando as suas canções, ao mesmo tempo que aproveitava para fazer campanha política.
No meio da sessão, o pároco foi ao palco, fez um discurso contra as letras das canções apresentadas e os membros do GAC ficaram de cara à banda. A seguir começaram eles a debitar umas frases em contradição com o que o pároco tinha dito e voltaram a cantar.
O público não era muito e a maioria eram jovens. Algum público mais idoso estava todo espantado com aquilo. Como era possível aquilo estar a passar-se no Salão Paroquial? Nem sei como não houve algum confronto verbal ou violência física.
Noutro momento o Toninho Oliveira (que estava presente) agarrou na minha irmã (então com 9 anos) e levou-a para junto dos membros do GAC, no palco. Ela não sabia muito bem o que estava lá a fazer, mas lá se manteve algum tempo.
Aquilo terminou e o GAC foi fazer uma nova «sessão», desta vez no Sabugal. Nunca mais ouvi falar sobre o que se passou no Sabugal. Se algum dos visitantes deste blog se lembrar dessa «sessão» no Sabugal, agradecia que deixasse comentário.
Curiosamente, há, aproximadamente, um ano o meu irmão disse-me que ouviu numa rádio nacional os elementos do GAC a referirem-se a esta «sessão» que teve lugar no Soito, de tal maneira este evento foi inesquecível.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

akapunkrural@gmail.com

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