Enquanto estudante em Coimbra, a história circulava e ouvia-a com algum fascínio: recém-chegado a Coimbra, Eça de Queiroz espantava-se com os discursos inflamados de um senhor já entrado na idade, discursos que versavam sobre o anarco-sindicalismo, tão em voga nos finais do século XIX. Questionando-se Eça, sobre o autor de tal dialéctica, responderam-lhe: «É o poeta Antero.»

José Robalo – «Páginas Interiores»«…Oponhamos à monarquia centralizada, uniforme e impotente, a federação republicana de todos os grupos autonómicos, de todas as vontades soberanas, alargando e renovando a vida municipal, dando-lhe um carácter radicalmente democrático, porque só ela é a base e o instrumento natural de todas as reformas práticas, populares e niveladoras…»
Discurso de 27 de Maio de 1871, integrado nas Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, de Antero de Quental.

Antero de Quental, para além de ocupar um lugar no Panteão dos poetas, foi um panfletário, tendo tido eco o seu texto que designou como «As causas da decadência dos povos peninsulares». Este texto que li há mais de trinta anos numa edição da Ulmeiro e resultante das famosas Conferências do Casino, em relação a Portugal, mantém toda a actualidade, uma vez que a centralização política e administrativa se acentua cada vez mais. Antero fez parte do grupo dos «Vencidos da Vida», ao qual mais tarde aderiu Eça de Queiroz e criticou o excesso de poder de Lisboa em relação ao resto do País, defendendo um estado descentralizado e desconcentrado, prestando serviços de proximidade.
Como sabemos a centralização acentua-se cada vez mais com o encerramento diário de serviços públicos. Administração Pública afasta-se assim dos cidadãos que supostamente deveria servir, tudo em nome da redução do défice e da despesa pública, onde apenas somos vistos na perspectiva de contribuintes.
O Interior está asfixiado e moribundo, sendo urgente denunciar esta política economicista, onde as pessoas são subalternizadas na cegueira do combate ao défice e ao emagrecimento do Estado, com a consequente propaganda da desvalorização do funcionalismo público.
No momento em que se discute o novo estatuto da região autónoma dos Açores, penso que seria oportuno que se discutissem novos critérios para atribuição de verbas para os municípios do interior, permitindo-nos assim obter outros meios financeiros capazes de dar resposta às nossas carências, colocando-nos assim em pé de igualdade com os municípios do litoral.
Ao escrever este texto, tive conhecimento através do amigo e colega de profissão José Manuel de Aguiar, a quem saúdo, da triste notícia do desaparecimento de mais um ilustre açoriano: Dias de Melo.
Natural da Calheta de Nesquim, aldeia de trancadores de baleias, Dias de Melo para além do talento literário de que era portador, soube colocá-lo ao serviço da denúncia da vida difícil dos baleeiros do Pico. Sugeri a leitura de um dos seus livros num dos meus textos do mês de Julho.
Dias de Melo exerceu a cidadania na sua plenitude, sempre ao lado dos homens do mar.

:: :: PARA LER :: ::
«Causas da decadência dos povos peninsulares», de Antero de Quental.
«Marilha», de Cristóvão de Aguiar.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Por este rio acima», de Fausto.
«Mozart, Piano concertos», interpretados por Keith Jarrett.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
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