Afirma Ignacio Ramonet, criador e presidente do Observatório Internacional dos Media, que é o sistema que engana e não os jornalistas.

António EmidioCom estas palavras leva-nos a crer que os jornalistas muitas vezes têm que se controlar a eles próprios para não se desviarem da linha editorial do jornal, da revista e do canal televisivo, não colidindo com os interesses dos accionistas, ou patrão, do meio de comunicação onde trabalham.
Qual é o jornalista do Le Monde, ou do Fígaro que se opõe num artigo ou numa crónica num desses jornais, à venda de armas por parte dos grupos Dassault e Lagardère, empresas que fabricam e vendem armas? Penso que nenhum, pela simples razão de que essas duas empresas são donas do Le Monde e do Fígaro.
Os Media estão integrados em grupos que o que mais lhes interessa é o lucro. A informação, a publicidade e a comunicação estão cada vez mais interligadas, daí resulta que a informação se tornou mais uma mercadoria, e o jornalista está somente para produzir, proletarizou-se, cada vez trabalha mais e recebe menos salário. A partir daqui a responsabilidade de toda a manipulação mediática é dos gestores mediáticos que não admitem outros pontos de vista senão aqueles que convêm aos seus interesses.
Pensa-se muitas vezes erradamente que são só os regimes totalitários que manipulam a verdade. Infelizmente a democracia recorre cada vez mais à propaganda para justificar modos de conduta moralmente duvidosos. O poder mediático é o único poder que nas nossas democracias não tem contra-poder, e isso é pouco saudável para a própria democracia.
Não posso terminar este meu artigo, que é um complemento do anterior «O que é a opinião pública?», sem um profundo e sincero agradecimento ao Paulo Leitão e ao José Carlos Lages por esta ÁGORA que é o blogue Capeia Arraiana, este espaço de liberdade onde nos podemos exprimir. Prossegui com o nobre caminho que escolhestes. A liberdade é sempre a liberdade dos que pensam de outra maneira, por mais que custe às mentalidades conservadoras, digo conservadoras porque conservam as mesmas ou parecidas maneiras de actuar das sociedades tradicionais e pré-democráticas, aquelas mentalidades que afastam como ilusório ou insensato a tentativa de se conseguir um Mundo diferente àquele que nos oferece a realidade no presente momento.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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