Sou natural do Soito e resido no Soito. Tenho 48 anos. Sempre esperei andar a correr Ceca e Meca, no início da carreira, para, mais tarde, poder ser colocado perto da minha residência, como acontece com qualquer outro funcionário público.

Ministra da EducaçãoAguincho, Mós, Sandomil, Sabugueiro, Paranhos da Beira, Algodres, Escalhão, Torre de Terrenho, Castanheira (localidades do distrito da Guarda), Lisga, Roda, Admoço (localidades do distrito de Castelo Branco) são terras e terreolas onde já exerci as minhas funções de professor do 1.º Ciclo do Ensino Básico (antiga Escola Primária).
Para além destas, também exerci nas escolas de Rebolosa, Lageosa, Foios, Soito, Aldeia Velha, Rendo e Bismula (no concelho do Sabugal).
Tenho vinte anos de serviço e pertenço ao Quadro de Zona Pedagógica da Guarda, conhecido pela sigla QZP.
Ninguém me pode acusar de desconhecer algum PAÍS REAL. Conheço bem o que são estradas de terra batida, o que é trabalhar em pré-fabricados e o que é trabalhar em escolas onde existem todos os anos de escolaridade, numa só turma (isto é, onde o professor trabalha com o 1.º, 2.º, 3.º e 4.º Ano, juntos numa mesma turma).
Nunca trabalhei dois anos seguidos numa mesma escola. Já trabalhei por duas vezes na mesma escola, mas em anos que não eram seguidos.
O desconhecimento por parte dos jornalistas e da população em geral, do que é a vida de um professor leva-os a dizerem os maiores disparates, sem que possam ser desmentidos.
Desde que este Governo tomou posse, através de uma bem orquestrada campanha na comunicação social, tem-se assistido a uma tentativa de denegrir a profissão de professor, metendo todos no mesmo saco, confundindo a parte com o todo, confundindo os professores do 1.º Ciclo com os professores do Secundário, chegando-se ao extremo de dizer que não passam de uma cambada de malandros, que não querem trabalhar, que são uns privilegiados, etc. etc.
Essa campanha tem tido um forte apoio de alguns comentadores mediáticos, tais como Emídio Rangel, Miguel Sousa Tavares e outros que não sabem do que falam, mas falam, falam, falam e escrevem.
A campanha começou por dizer que os professores estão todos colocados por três anos e, então, os professores não têm de que se queixar, já que antes era a instabilidade e, hoje, está tudo estabilizado.
Esta falácia é, facilmente, desmontada pelo meu próprio exemplo: Concorri, no ano lectivo 2006/2007 (o tal ano em que diziam que os professores eram colocados por 3 anos) e não obtive colocação no QZP da Guarda. Mas, muitos outros não ficaram melhor. Embora colocados tiveram que ir para longe (alguns com mais de 25 anos de serviço!!! – por exemplo uma professora do concelho de Sabugal, foi colocada no concelho de Gouveia e viu professores contratados ou do QZP, muito menos graduados ficarem no concelho do Sabugal). Em vez de colocarem os professores do QZP ( a quem têm que pagar ordenado, porque são do Quadro) colocaram contratados. Ou seja, pagaram ordenado ao professor contratado e , ao mesmo tempo, pagaram ordenado ao professor do QZP, sem escola atribuída. E diziam que Portugal estava em contenção orçamental.
Passado um tempo atribuíram-me uma colocação (a que chamam administrativa), na Escola de Aldeia Velha. Fiquei lá o ano lectivo todo.
No ano lectivo 2007/2008 tive que, obrigatoriamente, concorrer. Mas, sempre esperei não ser colocado (para os leigos: quem é do QZP e não é colocado no Concurso fica no Agrupamento onde prestou serviço no ano lectivo anterior). Desta vez já não colocaram os contratados, só colocaram os do QZP. Quem os consegue entender?
A minha colocação foi em Sandomil (Seia), a 125 Km de casa.
Passadas umas semanas colocam na Escola de Aldeia Velha uma professora do concelho de Seia. Como é natural, eu e a colega tratámos dos «papéis» para efectuar uma troca de lugares. Note-se que a colega que pretendia ser colocada na escola que me foi atribuída tinha um filho ainda bebé, tinha outro na Escola Primária e tinha o marido desempregado. Todos estes factos, mais o de eu ter sido o professor dos alunos de Aldeia Velha, no ano lectivo anterior, foram mencionados no requerimento entregue no serviço que processa as trocas de escola. Resposta do serviço competente relativamente à troca: «NÃO AUTORIZADA», porque haveria prejuízo pedagógico para os alunos.
O que aconteceu aos alunos da Escola de Aldeia Velha? Passaram o ano lectivo todo com a professora a usar o seu direito à amamentação do filho bebé, chegando sempre uma hora depois da entrada na escola. A substituição da professora em questão, durante essa hora diária foi assegurada por uma tarefeira que não é professora.
De certeza absoluta que a professora não necessitaria de usar esse direito à amamentação, se estivesse colocada no concelho de Seia, a poucos quilómetros da sua casa. Amamentaria o filho, de manhã, e ainda chegava a tempo à escola. Mas quem decide, está bem instalado num gabinete e quer lá saber.
Podem imaginar como me senti, no dia que recebi a notificação de que a troca não tinha sido autorizada. Nem consigo exprimir o que me passou pela cabeça. Dizer que foi uma aberração ou uma injustiça ainda é pouco. Verifiquei que há pessoas que nem uma pinga de humanismo têm, quanto mais de socialismo. Foi o pior ano lectivo da minha vida. À custa dessa colocação gastava mais de metade do meu ordenado em alimentação, deslocações e renda de casa. Apesar de estar a pagar um empréstimo ao banco, de uma habitação que adquiri, tinha que pagar uma renda de casa, ou seja pagava por duas casas.
Neste ano lectivo era eu que queria concorrer ( o que eu queria era sair daquela escola o mais rapidamente possível). O que faz, entretanto, o Ministério da Educação? Publica uma lei que autoriza os professores a manterem-se na escola, se o desejarem, para manter a continuidade pedagógica. No ano lectivo anterior não quiseram manter a continuidade pedagógica, podendo eu ficar em Aldeia Velha.
Voltei a concorrer e, apesar de ter colocado nas preferências todos os concelhos do distrito da Guarda, excepto o de Seia, fui colocado em Paranhos, no concelho de Seia.
Entretanto, neste ano lectivo voltaram a colocar no distrito da Guarda professores contratados, quando ainda existe uma meia centena de professores do QZP por colocar. Voltam a pagar ordenados a professores por duas vezes. E muitos desses contratados vão ocupar vagas perto da residência de muitos professores do Quadro, que tinham manifestado essas preferências no Concurso. Enfim um verdadeiro contra-senso…
Sei bem quanto isto é difícil de compreender por um leigo, que segue apenas as notícias na televisão, as quais estão sempre a insistir na tecla de que os professores estão colocados por 3 anos. Como se pode ver pelo exemplo, isso não é verdade.
O pior disto tudo é que esta situação, verdadeiramente surreal, só acontece com os professores. Outros funcionários do Ministério da Educação não passam por isto. Uma auxiliar de acção educativa ou um funcionário administrativo de uma escola, mesmo que esta feche, é transferido para uma escola próxima e tudo fica resolvido. Porque acontece isto aos professores?
E porque é que a Comunicação Social não foca estas situações surrealistas?
João Aristides Duarte

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