Fomos a Sortelha no passado fim-de-semana, ao III Iberfolk, onde conversámos com Carlos Alexandre, o principal organizador deste festival de expressão tradicional, onde a música, dança e aprendizagem marcaram presença. Natural de Lisboa, mas filho de Sabugalenses, frequentou no Sabugal a instrução primária, e aqui voltou a assentar arraiais quando acabou a licenciatura em História. Desde que o festival Iberfolk surgiu que está ligado à sua organização, lutando para manter viva uma realização diferente e assim contribuindo para que muita gente visite o concelho do Sabugal.

Que balanço é possível fazer destes três dias de Iberfolk em Sortelha?
Correu muito bem. No primeiro dia, na sexta-feira, a chuva parecia querer estragar o festival, mas nós fomos mais fortes e contornámos a adversidade mudando-nos para o salão do Rancho Folclórico, onde o programa musical se cumpriu. Nos restantes dias tudo correu normalmente, pelo que estamos satisfeitos.
E veio muita gente até Sortelha?
Não tenho ainda uma ideia concreta acerca do número de participantes, mas posso afiançar que vieram muitos mais do que no ano passado. Há aqui muita gente jovem, vinda de todo o país, e também muitos espanhóis que se juntaram a nós, além dos que passaram ao acaso, visitando a aldeia histórica e que, dando conta do que aqui se passava, optaram por ficar connosco.
E a população local com tem reagido a este acontecimento?
Reagiu bem. As pessoas gostam de assistir às diversas actividades e algumas inserem-se facilmente no espírito do festival. Por exemplo, alguns artesãos locais montaram bancas na rua para venda dos seus produtos e os comerciantes adaptaram os seus negócios às necessidades dos participantes no festival. A restante população do concelho também tem aderido mais. A mensagem foi passando e as pessoas compareceram e inseriram-se no ambiente.
Mas o festival, ao que se sabe, foi muito mal divulgado, na medida em que apenas à última hora se confirmou a sua realização.
Por estranho que pareça, só conseguimos confirmar a realização desta edição do Iberfolk há um mês atrás. Começamos a divulgar o festival logo em Janeiro, através de um press release que colocámos no nosso site, mas entretanto demo-lo como morto, porque os apoios não chegavam e assim era-nos impossível garantir a sua realização, já que se trata de um festival gratuito e nós queríamos manter esta matriz. À última hora a Câmara Municipal decidiu dar-nos apoio financeiro e então o festival ficou garantido, tendo porém que colocar tudo em pé em muito pouco tempo, o que apenas foi possível graças à colaboração de muitos amigos. Claro que assim a divulgação ficou prejudicada.
Mas este festival, que já vai na terceira edição, não deveria tentar garantir logo no final de uma edição as condições primordiais para sua realização seguinte, sem estar em absoluto dependente de subsídios?
Isso seria o ideal, mas a verdade é que este festival não se consegue realizar sem apoios. O acesso ao mesmo é gratuito e isso é uma das suas características essenciais que queremos manter. Além do mais ele não vive apenas dos apoios oficiais, que nos são prestados pela Câmara e pela Junta de Freguesia de Sortelha. Como se pode verificar, há aqui muito voluntariado e a ajuda de muitos amigos, sem os quais isto seria completamente impossível. Logo em Janeiro pedimos os apoios através da associação Transcudânia, que é a principal organizadora do evento, mas a verdade é que apenas a um mês do festival esse apoio foi prestado mediante a assinatura de um protocolo entre a câmara e a associação. Penso que realizações como esta deveriam ser devidamente apoiadas. Este festival é marcado pela livre adesão e pelo voluntariado, que talvez não possa durar sempre. Temos aqui amigos vindos de todo o país para nos ajudarem a manter isto em pé e a organização apenas lhes garante o alojamento e a alimentação. Sem eles isto não seria possível, mas não sei até que ponto poderemos manter este verdadeiro milagre com o orçamento reduzindo que temos.
Há então o risco do festival desaparecer?
Estou em crer que isso não vai acontecer, porque há sempre gente nova disposta a dar uma mão para que o festival se mantenha em pé.
E vai continuar a realizar-se em Sortelha?
Vai de certeza ficar aqui em Sortelha. Encontrou aqui o seu espaço apropriado, com a simbologia histórica do local e com condições ideais para a sua realização a todos os níveis, merecendo aqui uma palavra de destaque o presidente da Junta de Freguesia, o Luís Paulo, que tudo tem feito para que as coisas corram bem. A nossa ideia é um dia alargá-lo a outras terras, com a realização de algumas actividades. Também gostaríamos que se estendesse por cinco dias, em vez dos actuais três, que são claramente insuficientes para que as pessoas possam ter a oportunidade de percorrer o concelho.
Estás também à frente da iniciativa Ciência Viva, pela qual se têm promovido viagens de estudo no concelho do Sabugal durante este Verão. Que balanço é possível fazer dessa iniciativa?
Está a correr bem, porque ainda não acabou, embora não adere muita gente, o que é pena. É verdade que tem havido mais aderentes do que no ano passado, mas mesmo assim em número insuficiente para se poder dizer que foi um êxito. Eu fico um pouco triste por não haver mais gente do concelho a participar. A maior parte dos que são do Sabugal, estão cá em férias, mas os que aqui habitam todo o ano aderem muito pouco.
E a quê que isso se deve?
Sobretudo à falta de divulgação. O orçamento não dá para mais, mas tenho a certeza que com uma boa divulgação a população aderia mais, sobretudo os jovens. Nestes meses de verão há muita juventude nas aldeias, que poderia aproveitar melhor a sua estada participando nesta e em outra iniciativas interessantes.
plb