José Robalo – «Páginas Interiores»

«É um dado incontroverso e incontrovertível que para poder subsistir o homem necessita de meios de subsistência, numa palavra, de bens. Bens que, sendo económicos (ou por momentânea impossibilidade de acesso ou pela sua definitiva escassez), são objecto de disputa entre os homens…» (Orlando de Carvalho)

Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis

Era desta forma redonda, perfeita e absoluta que o professor catedrático de Coimbra, Orlando de Carvalho, iniciava as suas lições de Direitos Reais, ou Direito das Coisas.
Em Coimbra, o nome deste professor catedrático era sinónimo de terror para os alunos atendendo aos seus patamares de exigência e rigor. Este professor que aprendi a respeitar e admirar depois da reverência inicial, era antes de mais exigente e rigoroso com ele próprio. Para além da formação científica de que era portador e que gostava de transmitir aos alunos, quer nas aulas, quer através da escrita, era uma consciência cívica e cultural brilhante, que nunca abdicou dos princípios que defendia e de que a sua obra escrita para além do direito é testemunho.
Cruzei-me com ele a ultima vez num restaurante de leitão da Bairrada num 1.º de Maio e lá estava com lenço e gravata bem vermelhos, nunca perdendo o seu ar austero. Nestas férias judiciais tive disponibilidade para o prazer de reler a sua sebenta e concluir que na sua escrita nada está a mais. Tudo é perfeito, com significado e sentido!
Eram assim os homens de carácter e de princípios.
Nestes dias em conversa com um amigo artista plástico, quando lhe perguntei se tinha vendido bem na sua última exposição, respondeu-me que tinha vendido a série toda do trash.
Numa revista de língua inglesa constato com alguma naturalidade que nos EUA, o sucesso na música, na televisão, na literatura, no cinema e nos jornais, está no trash. Quanto mais lixo, mais sucesso. Afinal por aqui não inventámos nada com a música pimba e o telelixo, uma vez que como me dizia um colega de profissão, no final do dia saturado de processos e de julgamentos, «não tenho paciência para pensar. As telenovelas distraem-me e não me obrigam a pensar».
O trash domina este mundo globalizado, saltando para a cena política, só assim se compreendendo como Bush chega ao poder e encaramos com naturalidade ser governados por políticos que não conseguem explicar como obtiveram as suas licenciaturas. Deixámos de ser exigentes connosco e com os outros, demitindo-nos do exercício da cidadania, caro professor.
Como afirmava Orlando de Carvalho «os bens escassos são objecto de disputa que, gerando conflitos – conflitos de interesses – … temos que atender ao princípio do primum vivere, deinde philosophari, sempre fiéis à máxima maquiavélica de não olhar a meios para atingir fins.

:: :: PARA LER :: ::
«1998 – Orlando de Carvalho, Escritos. Páginas de intervenção I. Notas & nótulas de literatura e arte», Livraria Almedina.
«Sobre a noite e a vida, Poemas», Orlando de Carvalho.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«The Young Maverick», Glenn Gould.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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