Duas iniciativas culturais importantes vão ter lugar na próxima quinta-feira, dia 14 de Agosto, na Casa do Povo, em Vale de Espinho, freguesia arraiana do concelho do Sabugal.

Viagens da minha infânciaUma é a apresentação do livro «Viagens na Minha Infância – Lembranças Romanescas» do natural desta mesma aldeia arraiana, Joaquim Tenreira Martins.
A outra á a criação da editora luso-espanhola Côa-Águeda, com sede provisória nos Fóios e em Ciudad Rodrigo, na Espanha.
Joaquim Tenreira Martins retomou o painel de azulejos de Sacavém, que se encontra no Fontanário do campanário de Vale de Espinho, com uma cena infantil escolar, datado de 1936, para colocar na capa do seu livro.
O livro consta de 19 capítulos – o autor tem horror aos números redondos! Cada um apresenta-se como uma espécie de conto, que tanto pode ser lido por crianças, como por pessoas de idade.
Há jovens que o estão a ler e o curioso é que se sentem obrigados a esclarecer com os pais as tradições, os costumes, os lugares, os antepassados. Cria-se com o livro um diálogo entre gerações, à volta de uma aldeia raiana dos meados do século passado.
No final da obra insere-se um glossário com cerca de mil vocábulos. A maior parte das palavras nem vêm sequer no dicionário, mas continuam a ser usadas pelos naturais de Vale de Espinho e arredores. É tempo dos investigadores linguistas se debruçarem sobre este linguarejar raiano-beirão e o inserirem nos seus dicionários.
Pela mesma ocasião, será anunciada a criação da editora Côa-Águeda, com a sua plataforma que tem por lema «Da cultura para o desenvolvimento» – já de si um verdadeiro programa! Através da Côa-Águeda, os seus fundadores, espanhóis e portugueses, pretendem fazer um apelo aos seus filhos dispersos um pouco por toda a parte para que as suas ficções artísticas e literárias possam ser publicadas na terra onde nasceram e irradiar a partir daqui. Á semelhança do que aconteceu na pequena aldeia de Fóios, que tem uma plêiade de escritores, qual deles o mais valioso, e que não conseguiu editor para os seus manuscritos, também o mesmo se passará noutras terras do interior. A editora Côa-Águeda abre-lhes agora as suas portas.
O interior é motivo de inspiração para todo o domínio artístico. As artes precisam de sossego, de paz, de espaços livres e de horizontes a perder de vista. A raia beirã e a sua congénere espanhola é um oásis onde a natureza é mãe e rainha. Portugal está virado unicamente para Lisboa. Ela é o centro, o resto é o interior.
A fundação da Côa-Águeda é uma atitude de protesto e de apelo a todos os que pretendem modificar este estado de coisas.
Como dizia Miguel Torga, «pode ser que o exemplo seja seguido, e o êxodo, que empobreceu a nação comece a fazer-se em sentido inverso, e as nossas misérias e tristezas mudem de fisionomia porque Portugal necessita urgentemente de ser repovoado».
A editora Côa-Águeda nasce de mãos dadas com uma outra editora sediada no Porto, O Progresso da Foz, que, paralelamente à sua actividade editorial, tem um interessante passado cultural, literário e jornalístico.
Neste contexto, tivemos a preciosa colaboração do editor, Dr. Joaquim Pinto da Silva, director do Progresso da Foz, que numa atitude cívica fora do vulgar nos abriu as portas para que este sonho se tornasse realidade.
J.V.