José Robalo – «Páginas Interiores»

Em conversa com um velho trancador de baleias na Calheta de Nesquim, concelho de Lajes do Pico, ilha do Pico, este homem do mar com os olhos no horizonte de saudade dizia-me: «Se existe céu na terra, o céu está aqui.»

Os velhos baleeiros

Eu vi os barcos parados prisioneiros
na sede de um museu. E os arpões
pendurados. E gravadas
em dentes de baleia as passadas navegações
dos velhos baleeiros.

E vi os olhos daquele que falava
da última baleia como quem
remasse ainda sobre a onda brava
para um mar onde nunca mais ninguém.

Manuel Alegre

Trancador de BaleiasDe facto, neste fim de tarde numa conversa amena com um velo trancador de baleias respira-se serenidade, num olhar que repousa no infinito do Atlântico, da Atlândida, sempre na expectativa de lá ao fundo encontrarmos sinais de um cachalote. Hoje que a caça à baleia está proibida, por aqui a visita às baleias virou a negócio normalmente explorado por pessoas estranhas a este triângulo dos Açores, que envolve a ilha do Pico, Faial e S. Jorge.
Na Calheta de Nesquim, terra de baleeiros, os trancadores, oficiais, mestre de lancha, remador, cigana e construtor naval, profissões ligadas a esta actividade, caíram em desuso e hoje são figuras de museu.
Longe vai o tempo em que sentado no cais da Calheta de Nesquim conversei sobre esta temática com o Manuel Pereira de Lemos, o Manuel Alfaiate, que obsessivamente e de forma recorrente desfiava a sua memória sempre à volta desta temática. A proibição legal e a emigração para a América que fica lá bem longe no horizonte, transformaram esta gente em coisa inútil confinando-os à vida do campo.
As autoridades locais nesta ilha, onde se sente um grande cuidado com as coisas da cultura, reabilitaram estes espaços de transformação de cachalotes, erigindo museus, lembrando ao visitante que por estas terras existe gente de coragem. Os museus de S. Roque do Pico e das Lages do Pico, são o orgulho desta gente do mar onde «nunca mais ninguém».
O trancador de baleias pela sua coragem e atitude destemida ao enfrentar animais que pesam toneladas em condições adversas em alto mar e em pequenos botes, traz-me à memória a coragem das gentes da raia que sobreviveu ao contrabando. A coragem das nossas gentes mede-se também na forma destemida como enfrentam um touro em pontas com o forcão. Está aí mais um mês de Agosto e em boa hora pelas freguesias da raia encontramos capeias e festas populares que continuam a prender os nossos emigrantes ao concelho.
Penso que é chegado o momento para que alguém (uma junta de freguesia, ou município), aproveitando os novos fundos comunitários, se proponha avançar com a criação de um espaço museológico reavivando actividades e tradições raianas, uma vez que todos temos orgulho no nosso passado e na nossa memória colectiva.

:: :: PARA LER :: ::
«Mar pela proa», de Dias de Melo, Chão da Palavra.
«Mau tempo no Canal», de Vitorino Nemésio, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«L. A. Woman», The Doors.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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