Vivemos num país de litoral, onde mais de 80 por cento da população vive junto ao mar, ocupando cerca de um terço do território e nos restantes dois terços vivem 20 por cento dos «outros» portugueses que pelo facto serem poucos (e renderem poucos votos!) são abandonados à sua sorte…

Joaquim RicardoQuem percorre o País verifica em termos de densidade populacional uma grande disparidade: Encontra um litoral a abarrotar de gente, com imensas dificuldades de trânsito citadino, apesar das modernas vias de comunicação abundarem (auto-estradas e não só!), onde existe imensa poluição atmosférica (quase irrespirável!), e de inúmeros bairros clandestinos e sociais, pobres e sujos que cercam as grandes urbes.
Ao contrário, no Interior, percorrerá quilómetros sem fim e não encontra nada parecido com a paisagem anterior: Encontra um país calmo e uma paisagem idílica, cheia de grandes arvoredos, apesar dos incêndios dos últimos anos, mas desertificada em termos humanos. Parece até que estamos num outro país imensamente diferente do anterior e onde se constata organização nas cidades, ainda que com alguns atropelos ao ambiente natural. E, apesar disso e incompreensivelmente as pessoas preferem o caos das grandes metrópoles à tranquilidade das cidades de província.
Vivemos num país de litoral, onde mais de 80 por cento da população vive junto ao mar, ocupando cerca de um terço do território e nos restantes dois terços vivem 20 por cento dos «outros» portugueses que pelo facto serem poucos (e renderem poucos votos!) são abandonados à sua sorte em termos de investimentos e tudo lhes é retirado para ser reposto ou concentrado no litoral privilegiado! E até os cuidados de saúde não são poupados, a avaliar pelos inúmeros postos de saúde e até alguns hospitais situados em sedes de distrito, e o mesmo acontecendo a inúmeros serviços públicos como finanças, tribunais, etc. E o mais curioso deste cenário é que a lógica da deslocação dos grandes investimentos e serviços públicos para o litoral está certa, se atendermos que eles se dirigem às pessoas e porque é lá que elas existem, então é também lá que esses investimentos ou serviços deverão estar, ou seja: Desprotege-se o interior nada se investindo de modo a privilegiar a fixação das pessoas, como sejam em bons cuidados de saúde, boa administração pública, vias de comunicação que o liguem a todo o litoral e a deslocação de grandes investimentos produtivos e potenciadores de criação de postos de trabalho, etc. Ou seja, tudo isto é dirigido para o litoral repleto de gente e nada se faz para que essa gente se desloque para o interior onde lhe fosse oferecido trabalho e qualidade de vida e assim se redistribuindo a população. Ou seja, se os grandes investimentos fossem dirigidos para o Interior as pessoas viriam atrás! Assim, continua-se a assistir a um crescimento desorganizado e desumanizado do litoral em prejuízo do Interior.
O novo aeroporto e o TGV (com investimentos absurdamente avultados?) são importantes para o País mas será que nesta fase do nosso crescimento são prioritários? Não haverá outras prioridades que passem por medidas que potenciem a colonização do interior, por exemplo? O Brasil, França, Espanha, Rússia, etc. construíram ou deslocaram (caso do Brasil) as suas capitais no interior (centro) do seu território. O nosso «melancolicamente» de vocação virada para o mar, continua de costas voltadas para o resto do país e só em anos de eleições aqui se deslocam (por enquanto? Enquanto houver eleitores!) os seus responsáveis mendigando votos para a sua eleição, mas só enquanto dura a festa (campanha) porque depois, não voltamos a ouvir falar deles, ou estarei errado? Ao longo das legislaturas quantos deputados eleitos pelo interior fizeram ouvir a sua voz na Assembleia da República, em defesa da região que os elegeu?
«Ideias Soltas», opinião de Joaquim Ricardo

dr_jfricardo@hotmail.com