Qualquer dia voltamos às urnas para escolher uma nova equipa que irá governar o Concelho por mais quatro anos, pelo menos. Ainda falta muito tempo, mas tempus fugit como diziam os latinos, pelo que é natural que as máquinas partidárias comecem a escolher os candidatos.

António EmidioTodos sabemos do descrédito que a classe política tem perante os cidadãos. Os que vivem da política têm privilégios, como bons ordenados, escandalosas vantagens nas reformas, e, depois de deixarem de governar, bons lugares na economia privada.
Não nos poderá surpreender que a vontade de ter um cargo político esteja ligada ao desejo de daí se retirar proveito material. Os infelizes que sofrem desta doença não só querem mandar, mas também ganhar dinheiro o mais rápido e comodamente possível. A estes já Proudhom chamava «a casta de improdutivos». Mas nem sempre foi assim, a política em tempos não muito distantes era feita por quem não vivia do erário público, mas sim da sua profissão. Faziam-no por vocação, não por outra coisa qualquer. Aqui está a diferença entre uma época que tinha ideais, e uma época cínica em que tudo é permitido, que é a que vivemos agora.
Vamos pois até ao nosso Concelho. Os que aqui conheci e conheço no exercício da governação (Câmara, Juntas de Freguesia e Assembleias), salvo algumas excepções, foram e são homens e mulheres honrados, que trabalham, que servem e não se servem, que têm dimensão ética. Não estou a incensar ninguém nem a faltar à verdade, basta ver o que era o nosso Concelho em 1974, e vê-lo agora.
Não há gente! Não há investimentos! Isso não é culpa deles, é culpa do sistema político que nos rege, que a toda a hora nos diz que o que é urbano é que é bom, e que o rural não presta. Para não falar já do que foi retirado do interior para ser levado para outros lados onde não fazia falta.
Um dos maiores danos que o capitalismo causou à Democracia foi desvirtuar as eleições. Estas passaram a ser uma luta entre os grandes interesses das macro empresas e dos bancos. No nosso Concelho já se passará alguma coisa parecida? Pessoalmente acredito que esse veneno já se está a querer infiltrar, já há Lobbys económicos, já há Think Tanks (tanques de pensamento, grupos de pressão) que talvez queiram influenciar a escolha dos candidatos. O leitor sabe que essas influências e essa sobreposição do poder económico ao político têm infelizmente outros objectivos que não a democracia. Nenhuma empresa nem nenhum empresário investem num partido político ou num homem pelo amor que têm à Democracia.
No nosso Concelho quase todos nos conhecemos uns aos outros. Portanto, estimado leitor e eleitor, quando os candidatos forem do conhecimento público, analise-os, veja o seu comportamento ético e moral, cívico, a sua sensibilidade social, o seu humanismo, a sua capacidade de trabalho e a sua cultura.
Pessoalmente já me conformava com um Concelho menos moderno e mais virado para os valores em que nós os mais velhos fomos criados (digo valores, não pobreza), para os seus campos, para as suas florestas, para os seus rios e ribeiros, para as suas micro e pequenas empresas e para o seu pequeno comércio. Aqui está a riqueza do Concelho. Deixe-me dizer-lhe uma coisa leitor, assim como o homem muda sem deixar de ser ele mesmo, a história caminha para diante sem deixar atrás o passado. Quem nos diz que um dia não voltemos a ver todas estas terras semeadas e todas estas árvores a darem fruto?
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

António Emídio é um pensador livre e escritor de intervenção, que analisa de forma descomprometida a evolução da sociedade actual. Desde há algum tempo que este sabugalense, nascido e radicado na sede do concelho, mantém uma colaboração eventual com o Capeia Arraiana. Aceitou porém agora o nosso desafio e passará a colaborar mais assiduamente, mantendo a coluna de opinião «Passeio pelo Côa».
plb

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