José Robalo – «Páginas Interiores»Estamos em plena celebração dos santos populares, o Santo António, o São João e o São Pedro, santos com grande capacidade de atracção em termos de festejos já que a folia destes santos está profundamente enraizada nas nossas gentes.

São João
Se fores ao São João
Trazei-me um São Joãozinho
Se não puderes c’um grande
Trazei-me um mais pequenino

São João adormeceu
Nas escadinhas do coro
Deram as moças com ele
Chuparam-lhe o sangue todo

Onda andará o São João
Que o não vejo na Igreja
Anda a correr as fogueiras
Para ver quem o festeja.
Canção popular de Trás-os–Montes, pela Brigada Victor Jara

Sem pretender meter a foice em seara alheia, julgo que estas festas populares vieram substituir rituais e celebrações pagãs, que o cristianismo tentou apagar com a introdução destes santos populares. Esta talvez seja a razão porque nestas festas a folia ainda se sobrepõe ao culto religioso.
Como se refere no texto de origem popular transmontano superiormente interpretado pela Brigada Victor Jara, São João era atacado pelas moças num misto de matreirice até porque os santos populares eram casamenteiros e foliões.
Por outro lado e apesar de já termos abandonado as nossas raízes em termos de actividades produtivas, não devemos esquecer que a riqueza destas terras assentava na agricultura e nas lides do campo, onde se exigia muito esforço físico e trabalho braçal; estes homens e mulheres de granito das mãos calejadas e do suor, também tinham as suas festas.
Não devemos esquecer que estávamos em plena actividade produtiva, no solstício de Verão, com trabalhos colectivos que por si também propiciavam estas festas e folias. Refiro as tosquias, as ceifas, as malhas, as regas, as mondas, a recolha dos fenos, com ranchos de trabalhadores onde no final do dia ainda havia tempo para a festa, sobretudo quando as colheitas justificavam todas as canseiras.
Não é assim estranho que o nosso Sabugal mergulhando nas suas raízes mais profundas celebre o São João numa dimensão concelhia e regional com alguma atractividade.
Estas são razões mais do que suficientes para colocar esta temática sobre a mesa e discutir com seriedade a possibilidade de transformar estas festas em festas concelhias da responsabilidade da autarquia, esquecendo bairrismos doentios que são sempre perniciosos para o desenvolvimento.
Enquanto tal não acontece, aí vem mais uma festa de São João da responsabilidade de um corajoso grupo de mordomos, a quem devemos dar todo o nosso apoio nela participando.

:: :: Para ler :: ::
«O Malhadinhas», de Aquilino Ribeiro, Bertrand Editora.
«A Selva», de Ferreira de Castro, Guimarães & C.ª
:: :: Para ouvir :: ::
«Brigada Victor Jara, Tamborileiro», Editorial Caminho, Mundo Novo.
«Nocturnes, Chopin», Arthur Rubinstein, Sony BMG.
«Ópera do malandro», Chico Buarque, Polygram.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

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