José Robalo – «Páginas Interiores»A comunicação é de facto muito fascinante. Como num modelo cibernético cada crónica que é publicada nesta coluna de opinião, provoca reacções e feed-back, na forma de i–meils* no meu endereço electrónico.

Pobre almita tão meiguita
Deste corpo sociazita
Que para uns duros lugarzitos,
Escuritos, desertitos,
Sozinha ao presente vás
Ai nunca mais brincarás…

P. Élio Adriano, Imperador (76-138), citado por Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano.

Referindo-se ao meu último texto dizia-me um leitor que não conhecia esculturas sonoras, aludindo a instalação que o Pires Vieira, designa por Narrativas.
Essa é boa! Existem esculturas sonoras e estátuas falantes… Senão vejamos,
Nos trabalhos de recuperação da Piazza Navona uma das mais interessantes de Roma, por volta do séc. XV foi encontrada uma estátua provavelmente do séc. III a. C. em muito mau estado de conservação.
O seu estado era de tal forma miserável, que foi colocada num pedestal num pequeno beco tendo a estátua sido baptizada com o nome de Pasquino, numa alusão explícita a um alfaiate conhecido pela sua língua viperina e cáustica.
PasquinoCom o tempo na Piazza Pasquino, foi-se criando o hábito de se colarem na estátua textos críticos e sugestões dirigidas aos políticos que tinham o governo da cidade, por vezes até com calúnias e isto pela calada da noite.
No manhã seguinte, as pasquinadas circulavam pela cidade chegando aos ouvidos do poder temporal e espiritual, dando azo a perseguições e detenções. Pasquino, a estátua falante, continua a ter toda a utilidade na actualidade como meio de protesto e crítica dos romanos em relação ao governo da cidade e do país.
Etimologicamente podemos afirmar que foi esta estátua falante que deu origem à palavra pasquim, que designa um jornal de pouca e duvidosa qualidade.
Apetece-me dizer que o nosso Sabugal com tantos críticos e línguas viperinas está carenciado de uma estátua falante como o Pasquino ou um dos seus concorrentes Marforio ou Abade Luigi, podendo utilizar-se para o efeito o pelourinho.
* neologismo da minha autoria.
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Para ler: «Memórias de Adriano», de Marguerite Yourcenar, Ulisseia.
«Gaveta das Nuvens, tarefas e tentames literários», de José Gomes Ferreira, Moraes Editores.
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Para ouvir: «Sergio Cammariere», Cantautore Piccolino, EMI.
«Luca Barbarossa», Via Delle Storie Infinite, Universo.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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