José Robalo – «Páginas Interiores»Com um brilho especial nos olhos diz-me que o futuro aeródromo do Sabugal irá permitir criar uma escola de aeronáutica, ao nível de pequenas aeronaves, ultraleves e autogiros. «Gosto de desafios, sou e sempre fui um homem de arriscar. Desde sempre sonhei que poderia voar. Fechava os olhos e imaginava-me a voar. É um sonho.»

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corolas
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
«Queixa das almas jovens censuradas», de Natália Correia (1923-1993)
com interpretação de José Mário Branco.

 

Chama-se António Fernandes, é natural da Nave e reside no Sabugal. «Quando decidimos construir a primeira discoteca da Beira Alta há mais de 30 anos, na Nave todos me chamaram maluco, pela novidade do investimento. O Teclado foi uma das discotecas de referência.»
Depois de vários anos em França onde tem uma empresa na área do Inox, regressado a Portugal, diz-nos: «Não posso parar. É um sonho e penso que este investimento é uma mais-valia para o Sabugal, uma terra que adoro e penso ser a mais bonita do mundo.»
Com o apoio do Município que já está assumir o investimento, António Fernandes está disposto a dar mais um passo na sua vida, mas este tendo em atenção essencialmente a terra de que tanto gosta.
António FernandesÉ o rosto de um pequeno grupo de pessoas que estão dispostas a concretizar um projecto que poderá ser estruturante para o desenvolvimento do concelho e da região. O aeródromo, a escola de aeronáutica e um núcleo de amantes do autogiro serão uma aposta na diferença. O autogiro apesar de ser um aparelho com mais de 80 anos, inventado por
Futuro aeródromo do SabugalJuan de La Cierva em 1923, só após a sua utilização num dos filmes de James Bond, é que virou a moda e foi reabilitado.
«Já imaginou a sensação de sobrevoar os nossos castelos, o nosso património e a Reserva da Malcata a bordo de um aparelho destes?», diz-nos com encantamento no olhar e na voz. «Quando tinha a discoteca o Teclado ainda construí um helicóptero, mas nunca chegou a voar.»
Numa segunda fase pretende utilizar uma infra-estrutura que já construíu ao alto do Espinhal, um pavilhão para montagem de ultraleves e autogiros, criando postos de trabalhos. «A ideia já está em movimento e nada a poderá parar.»
Numa região deprimida, estas ideias e projectos podem ser uma mais-valia, pela aposta na diferença e originalidade, podendo trazer ao concelho os amantes deste tipo de actividades, aumentando assim a oferta turística e atractividade.
Como escreveu Erasmo de Roterdão, no seu livro Elogio da Loucura: «Que seria do mundo sem a loucura?», a tal magia que o faz andar, até porque o céu de Ícaro é mais belo do que o de Galileu.
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Para ler: «Poesia Completa» Natália Correia, Dom Quixote.
«Emigrantes», de Ferreira de Castro, Ed. Guimarães & Cª.
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Para ouvir: «Brad Mehldau Trio Live», editado por Nonesuch Records.
«Kenny Burrell, Midnight Blue», da Blue Note.
«Nine Horses, snow borne sorrow», samadhisound.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

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