Corria o ano de 1983, quando estudante e republico em Coimbra desenvolvi alguma actividade com natural agitação associativa, ao nível da Associação Académica. Acreditávamos todos que podíamos mudar o Mundo, mas o que conseguimos foi que o Mundo não nos mudasse a nós.

But man proud man
Dressed in a little brief authority
Most ignorant of what he’s most assured
(his glassy essence) like an angry ape
Plays such phantastic tricks before high heaven
As makes the angels weep who, with our spleens,
Would all themselves laugh mortal.
William Shakespeare

Nesse ano, o descontentamento foi protagonizado por uma lista independente e candidata à Presidência da Associação Académica que na altura protagonizei. Com um grupo de amigos e colegas estudantes, criámos uma dinâmica saudável, que assustou as juventudes partidárias tradicionais; a lista E soube desenvolver um discurso original e criativo, que teve acolhimento e aceitação na comunidade estudantil, tendo obtido um honroso 3.º lugar e com muitos votos. Recordo-me que toda a nossa propaganda tinha como pano de fundo o herói de banda desenhada Corto Maltese, protagonizando assim a liberdade e o sonho… Era uma altura em que acreditávamos que podíamos mudar o mundo, mas o que conseguimos foi que o mundo não nos mudasse.
Na segunda volta, após prolongadas negociações, os votos da lista E foram decisivos para dar a vitória à lista encabeçada por Luís Parreirão.
Tendo obtido o seu tirocínio na Académica, não estranhei quando vi este amigo, Secretário de Estado das Obras Públicas no Governo socialista de António Guterres, cujo ministro da tutela foi Jorge Coelho e do qual saiu após o fatídico acidente da ponte de Entre-os-Rios.
Este fim-de-semana comprei e li o semanário Sol, onde no seu suplemento de Economia, tive conhecimento que o Luís Parreirão é o actual presidente da Ascendi, uma joint-venture, da Mota-Engil e do BES, para as concessões rodoviárias e que Jorge Coelho irá ser de novo chefe do Luís, uma vez que vai presidir à Mota-Engil.
A pergunta que me coloco é simples: porque é que estes gurus da política, de um momento para o outro passam do governo para líderes de construtoras ou de empresas concessionárias de auto-estradas da responsabilidade desse mesmo Estado que é o nosso? É legítimo que um ex membro do governo sem qualquer pudor aceite cargos de administrador de empresas da sua área de influência e tutela?
Luís Parreirão em entrevista ao Sol, é claro: «Ter sido membro de um governo não deve ser critério de recrutamento, ou não recrutamento»; tal nunca lhe tirou o sono, porque sempre esteve a «bem com a consciência». Mais refere, que sempre esteve «tranquilo», apesar de ter ido para uma empresa de um sector com que lidou enquanto secretário de estado.
Só agora compreendo o pensamento de de Adam Smith, quando na sua obra «A Riqueza das Nações», discorria sobre a sua teoria da «Mão Invisível», a qual num mercado livre do «laissez faire, laissez passer», ajudaria a conter as catástrofes e os excessos de mercantilismo, zelando pelo interesse público. Esta prática, vem assim demonstrar que o grande mentor do liberalismo acertou na sua análise e previsões, até porque como afirma Luís Parreirão «as pessoas têm direito de estar em cargos para que são convidadas».
Salvaguardadas as devidas distâncias, no seu tempo, Filipe V, Rei de Espanha, celebrou um contrato com o rei de França, para negociarem escravos na Guiné. No entanto, o contrato tinha uma cláusula de salvaguarda: «Os barcos e marinheiros deveriam ser católicos.» Com estas reservas ficavam mais tranquilos e em paz com a consciência.
Apetece citar Jorge Luís Borges, quando afirmava que os sete pecados mortais se resumem apenas num: a crueldade.
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Para ler: «Ricardo III» de William Shakespeare, ed. Difel.
«O Rei Lear», de William Shakespeare, da Editorial Caminho, tradução e notas de Álvaro Cunhal.
«Ficções», de Jorge Luís Borges, ed. Livros do Brasil.
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Para ouvir: «Night and the city», Charlie Haden e Kenny Barron, Polygram.
«José Afonso ao vivo no coliseu», em especial do choupal até à lapa.
«Introducing… Rubén González», Buena Vista Social Club, ed. A world circuit prodution.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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