Fomos à Cerdeira do Côa, onde conversámos com o Padre António Teixeira Souta, capelão do Colégio Regional José Dinis da Fonseca, que, mau grado ter deixado de paroquiar a cidade do Sabugal, continua com um intenso trabalho pastoral.

O Padre Souta com o livro «Celestina»A vinda para a Cerdeira não representou para o padre Souta o merecido «descanso do guerreiro», que muitos vaticinaram. Sendo capelão do colégio, presta assistência religiosa às 22 irmãs e às 80 alunas internas que o integram, incluindo-se aqui uma missa diária. Presta também auxílio ao arciprestado do Rochoso, celebrando missas na Cerdeira do Côa, Parada, Peroficós, Monte Margarida, Penedo da Sé, Marmeleiro e Miuzela do Côa. Ajuda ainda nas confissões e nos funerais, para além de concelebrar e dizer sermão nas festas religiosas da redondeza, sempre que é a isso chamado pelos demais párocos.
Recebeu-nos na casa que agora ocupa com a sua irmã, mesmo ao lado do colégio. Estava a ler o livro «Celestina», de Joaquim Manuel Correia, recentemente editado pela Câmara Municipal do Sabugal e a cujo lançamento assistiu no Sabugal. «Aqui há dias fui ao colóquio comemorativo dos 150 anos do nascimento de Joaquim Manuel Correia. Ia sobretudo para me encontrar com o Pinharanda Gomes e com o Manuel Leal Freire, mas acabei por falar com muitas outras pessoas de grande interesse, como foi o caso da neta do homenageado, a Drª Natália Correia Guedes, que acabaria por me assinar uma dedicatória no livro», disse-nos o padre Souta, mostrando com ar prazenteiro a primeira página do volumoso livro, onde estava redigida a dedicatória.
Acha então que valeu a pena editar agora esse livro, escrito há mais de um século?
Claro que valeu a pena, é um livro muito bonito, que fala muito das nossas terras e das nossas tradições de antigamente, para além de nos dar um enquadramento histórico muito importante. Tudo isso surge à medida que evolui o romance, cuja personagem central é a Celestina, que era filha de um padre, coisa algo comum na época. Hoje isso seria um escândalo mas à época havia casos destes. Enfim, estou agora a meio na leitura do livro, que tem 500 páginas.
Falando sobre a Cerdeira e as suas novas funções, diga-nos se está satisfeito por estar aqui no Colégio Regional como capelão.
Tem sido uma experiência muito enriquecedora. O que mais me impressiona é a fortíssima ligação das jovens alunas internas às suas famílias. Muitas são de longe, mas à sexta-feira à tarde a Cerdeira enche-se com os carros de familiares que as vêm buscar para passarem com eles o fim-de-semana. Tirando uma jovem, cujos pais vivem na Holanda, todas as outras raparigas vão para casa nos fins-de-semana, deixando o colégio vazio. Confesso que pensava que estas jovens apenas eram aqui recolhidas pelas famílias quando começavam os períodos de férias, mas vejo com satisfação que isso não é assim, e ainda bem porque isso significa que os pais não abandonam aqui as filhas, entregues à instituição.
E quanto ao Sabugal, sente saudades das funções que ali desempenhou enquanto pároco?
Sinto muitas saudades do Sabugal e dos meus antigos paroquianos. Muitas pessoas vêm-me cá visitar e manifestam preocupação com a minha saúde. Eu próprio vou ao Sabugal todas as semanas visitar e almoçar com uma sobrinha minha que lá vive e trabalha. Sempre foram 57 anos de pároco no Sabugal e isso marcou-me muito. Posso mesmo dizer que me orgulho muito da obra que considero ali ter deixado.
E qual foi essa obra?
Podemos dividir essa obra paroquial em dois campos, o material e o pastoral. No referente à obra material, houve a ampliação da Igreja de S. João, a construção do santuário da Senhora da Graça, a ampliação da igreja da Aldeia de Santo António, a construção das capelas dos Amiais e das Alagoas, a edificação da casa paroquial. Pastoralmente também penso ter deixado uma boa obra. Entre outras coisas fundei o Centro de Preparação para o Casamento, que foi um dos melhores da diocese, e o Agrupamento de Escuteiros. Ambas as obras acabariam por progressiva falta de interesse dos paroquianos, mas elas marcaram. Sobretudo deixei um bom ambiente, o que do ponto de vista paroquial julgo terem sido raízes importantes para o trabalho que o novo pároco está agora a realizar.
E quanto ao Amigo da Verdade, a sua publicação ao longo dos anos, também foi um marco importante do seu trabalho enquanto pároco?
Quando o Sr Bispo me contactou no sentido de me informar da sua intenção de me libertar da paróquia do Sabugal, coloquei-lhe duas condições, que ele aceitou. A primeira era que não me obrigasse a «vir com a casa às costas» para a Cerdeira, tinha a casa paroquial mobilada mas a mobília ali existente teria de ficar para o novo pároco. A segunda condição era que a edição sabugalense do Amigo da Verdade tivesse continuidade. Isto para dizer que considero o Amigo da Verdade o elo de ligação entre o pároco e os paroquianos e também entre as diversas aldeias do concelho do Sabugal. E como uma grande parte dos assinantes estão em França e noutros países onde há sabugalenses, o jornal também ligou essas comunidades ao Sabugal. Eu considero até que dei a conhecer o concelho ao concelho através do Amigo da Verdade. Dantes as terras do concelho conheciam-se pouco umas às outras, porque algumas estão muito distantes e as tradições são muito diferentes, e o jornal passou a levar a umas o conhecimento daquilo que se passava nas outras e isso foi muito importante.
Como observador atento à vida do concelho do Sabugal, considera que essas diferenças entre as suas freguesias são mesmo muitas?
Isso é claro e pode ser bem visível nalgumas manifestações populares. As maiores diferenças estão nas freguesias do sul do concelho, que têm tradições e maneiras de estar completamente diferentes. Por exemplo, nas terras do sul, como Santo Estêvão ou Casteleiro, o povo vai em procissão em duas filas, uma de cada lado da estrada, constituindo um longo cortejo, de que as pessoas se orgulham muito. Já nas restantes terras do concelho, sobretudo na Raia, as pessoas caminham juntas ocupando toda a estrada. Outro exemplo está nas touradas. Na raia têm a capeia com forcão e nas outras terras, que também gostam dos touros, preferem as touradas á vara larga ou as garraiadas.
Ainda encontra tempo para ir a Belmonte, a sua terra de nascimento?
Vou lá com a minha irmã todos os meses. Temos lá família, que gosto de visitar, e temos até algumas propriedades, de onde recebo umas rendas. Além do mais gosto de ir lá nas festividades. Ainda agora, no dia 26 de Abril, lá estive por ocasião da «Festa dos Brasileiros», que se celebra todos os anos. A mesma é alusiva à descoberta do Brasil em 1500 por Pedro Álvares Cabral, natural de Belmonte, e à primeira missa ali celebrada pelos portugueses, segundo o que descreve o Pêro Vaz de Caminha na sua carta. É uma festa muito importante que corresponde ao feriado municipal e onde gosto sempre de participar, e às vezes me cabe dizer sermão na cerimónia religiosa.
plb

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