«A Perfeição» é um conto de Eça de Queiroz, que se desenvolve à volta de um episódio retirado da Odisseia, obra atribuída a Homero e que descreve as aventuras do divino Ulisses, ardiloso guerreiro.

José Robalo – «Páginas Interiores»«- Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses para toda a imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos…
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
– Oh deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delícia das coisas imperfeitas!»
«Contos», de Eça de Queiroz

Se a Ilíada retrata a guerra de Tróia, onde os heróis são Aquiles e Heitor, a Odisseia tem como herói Ulisses no pós – guerra de Tróia e o seu regresso a Ítaca. Aí aguardavam-no seu filho Telémaco e a sua esposa Penélope, que ia enganando todos os seus pretendentes, fiando e desfiando a famosa teia enquanto Ulisses sofria as mais variadas desventuras, vítima da fúria dos deuses, durante vinte anos.
Atingir a perfeição é objectivo da maioria dos humanos e do próprio leitor, sendo certo que tal desiderato é inalcançável, não passando de uma miragem, uma ilusão dos mortais, por tal ser a nossa condição. Esta constatação, leva-me a desconfiar de todos aqueles que nunca tendo feito nada na vida, passam o seu tempo a fazer críticas destrutivas dos que vão fazendo, como se fossem perfeitos. Ainda tenho presente na minha memória um comentário que um cliente, vai para uns anos, fez no meu escritório: «Sabe, nesta vida quem trabalha muito erra muito, quem trabalha pouco erra pouco e quem não faz nada é condecorado.»
Estes são motivos mais do que suficientes para defender como defendo, que quem pretenda desempenhar cargos públicos e políticos seja avaliado pela capacidade de realização na sua vida profissional. Em meu entender, quem não tiver provas dadas na sua vida profissional privada, nunca poderá ser um bom administrador das coisas e interesses públicos, da res publica.
Quem nunca fez, não tem autoridade para criticar quem faz, mas quem faz, tem que ter capacidade para aceitar as críticas, dando como assente que é sempre possível fazer melhor.
Na Bíblia, retrata-se esta temática imanente ao ser humano, quando os escribas apresentam a Jesus a mulher adúltera, pretendendo saber o que fazer; Jesus, ao mesmo tempo que supostamente escrevia no chão os pecados dos escribas respondeu «quem não tiver pecado, atire a primeira pedra». (Jo 8,1-11). Todos conhecemos sobejamente o final desta parábola.
Voltando ao nosso conto, Calipso a ninfa do mar, poderosa feiticeira, vivia na Ogígia uma ilha povoada de bosques, com juníperos e álamos, num cenário paradisíaco, onde reinava o simbolismo da morte, uma espécie de Campos Elísios, destino dos heróis depois da morte. Calipso, ofereceu a Ulisses a imortalidade e a juventude eterna, onde tudo era perfeito, entregando-lhe uma espécie de morte em vida, que este recusou.
Esta ilha, descrita como «o umbigo do mar», é localizada segundo os diferentes autores ora nos Açores, ora na ilha de Malta; para outros, Ogígia corresponde à ilha de Mljet, na costa da Croácia, que para quem conhece é a ilha mais bonita do mar Adriático, em praias, fauna e flora.
No entanto, apesar da hospitalidade da deusa, da serenidade da ilha, as saudades do mundo imperfeito em Ítaca, levaram Ulisses abandonar as delícias da perfeição que Calipso lhe proporcionava, numa alusão implícita à nossa predisposição inata para não nos resignarmos e pretendermos lutar por tudo aquilo em que acreditamos. A deusa perante esta decisão de Ulisses, augurava-lhe: «– Quantos males te esperam, oh desgraçado!»
Voltando ao conto de Eça de Queiroz, Ulisses respondeu-lhe:
«Considera, oh deusa, que na tua ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido; a carcaça de um bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh deusa, há oito anos, oito anos terríveis, estou privado de ver o trabalho, o esforço, a luta e o sofrimento… Oh deusa, não te escandalizes! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem de uma ponte; os braços suplicantes de uma mãe que chora…Deusa há oito anos que não olho para uma sepultura… Não posso mais com esta serenidade sublime! Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se despedaça, e se corrompe…Oh deusa imortal, eu morro com saudades da morte!»

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Para ler: «Contos» de Eça de Queiroz, Edição Livros do Brasil.
«A Odisseia», de Homero, sendo de leitura mais acessível a publicação em livro de bolso da Europa-América.
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Para ouvir: «Emil Gilels, Plays Beethoven», piano concertos e piano sonatas, Brilliant Classics, historic russian archives.
«Jacques Higelin à Mogador», EMI Pathé Marconi.
«Por sendas, montes e vales», Brigada Victor Jara, Farol da Música.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
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