Fomos até Évora ao encontro do Arcebispo D. José Alves em dia de Jornada Histórico-Teológica integrada nas comemorações dos 700 anos da Sé Catedral. Na Fundação Eugénio de Almeida e após o discurso de encerramento trocámos algumas impressões com o prelado sabugalense natural da Lageosa da Raia.

Arcebispo de Évora D. José AlvesNo final da conferência que encheu por completo o auditório da Fundação Eugénio de Almeida, D. José Alves, com amizade e simpatia acedeu a conversar com o Capeia Arraiana.
– É muito diferente ser bispo em Portalegre e arcebispo em Évora?
– Tem aspectos que são diferentes e tem outros que são iguais. A diocese de Évora é diferente porque, apesar de ser exclusivamente alentejana e ter a sede no centro, é a maior do País. A Diocese de Portalegre tem a sede no extremo o que alonga as distâncias a percorrer e é diferenciada porque inclui três distritos: uma parte de Portalegre, uma parte de Castelo Branco e uma parte de Santarém. O exercício do ministério episcopal, no essencial, é igual, lá e cá, e em questão de ruralidade são iguais.
Aproveitamos para saber um pouco mais sobre as comemorações que decorreram na Fundação Eugénio de Almeida.
«Cumprem-se em 2008 os 700 anos da dedicação da Sé de Évora. Há notícias da sua existência desde o século IV mas é a partir de D. Afonso Henriques que há dados históricos mais consistentes. A Fundação e a Diocese pretendem assinalar o ano de 1308 promovendo uma reflexão sobre a passado tendo em conta os aspectos cultural e histórico. As Sés são confiadas a um conjunto de cristãos a que se chama o Cabido. Têm a confiança do seu bispo e ocupam-se da gestão da Sé. Antigamente as Sés tinham funções de ensino. As escolas catedralícias estiveram na origem das Universidades. Neste caso concreto o cabido da Sé de Évora é célebre pelo ensino da música desde os séculos XVI e XVII. Os grandes mestres da música que foram contratados eram do melhor que havia na altura e viviam no edifício ao lado da Sé. Ensinavam música a jovens e a padres fundamentalmente para a liturgia. É um período áureo que está associado à presença da corte em Évora.»
– A cultura e o património arquitectónico estão ligados às religiões…
– Se retirarmos igrejas, conventos, mosteiros e monumentos evocativos pouco fica como património cultural em todo o Mundo. O melhor que há em pintura no Mundo está sempre relacionado com a religião. Mesmo fora do cristianismo, como nas pirâmides do Egipto, está presente a religião porque quando digo religião não digo apenas cristianismo…
– Ainda há tempo para ir ao Sabugal?
– Vou sempre que posso. Estive lá na altura do Natal e a seguir à Páscoa. Infelizmente os meus pais já faleceram mas a minha irmã ainda vive na Lageosa. Gosto imenso de voltar porque está lá a minha raiz. Gosto de conviver com aquela gente, gosto de respirar aqueles ares, ver aquele ambiente.
– O sotaque raiano ainda se sobrepõe ao alentejano…
– Nunca perdi o sotaque raiano e nunca apanhei o sotaque alentejano. Intencionamente posso falar com algum sotaque alentejano mas normalmente não acontece… Apesar de viver no Alentejo estive durante muitos anos ligado ao Seminário que que tem um ambiente heterogéneo. Claro que tenho contacto com o povo alentejano mas nunca apanhei o sotaque.
– Évora tem muitos religiosos naturais do Sabugal. A que se deve?
– A diocese de Évora tem muitos padres originários do concelho do Sabugal. Quando fui ordenado bispo há 10 anos eramos 18 sacerdotes sabugalenses e já tinham sido bastante mais. Monsenhor Arcebispo D. Manuel Mendes da Conceição Santos foi vice-reitor do seminário da Guarda e bispo de Portalegre. Tinha uma forte ligação com a Guarda e foi uma das razões. A outra é consequência de o Seminário Menor da Guarda (no Fundão) não comportar todas candidaturas e muitos eram enviados para Évora. Além disso os primeiros padres que se ordenaram daquela zona (Aldeia do Bispo e Aldeia da Ponte) serviram de elo de ligação para os que se seguiram. Lembro-me que viemos cinco jovens estudar para Évora porque conheciamos o padre.
– Mas é o primeiro arcebispo natural do Sabugal…
– Nos tempos recentes não houve nenhum. Os meus contemporâneos têm sido muito simpáticos comigo. Vieram a Évora quando foi da minha ordenação como bispo. Quando fui para Portalegre acompanharam-me também. Recordo a cerimónia que organizaram na Casa do Concelho do Sabugal. E agora quando foi da minha ordenação como arcebispo a 17 de Fevereiro aí estava um autocarro cheio além dos que vieram em carros particulares. Tenho que lhes agradecer porque têm sido de uma simpatia extrema.
E como as capeias estão sempre presentes nas conversas dos raianos…
«Há uma coisa que eu não dispenso nas capeias. Ir ao encerro e ver a prova. Agora há menos emoção porque tem que haver mais segurança e o touro grande já não foge. Na minha aldeia brincávamos às touradas e ao forcão. Havia sempre um de dimensões mais reduzidas para a miudagem. É feita a socialização desde tenra idade e depois assumimos as capeias quase como uma natureza. Ao contrário do que alguns pensam não tenho nada contra as capeias. Não tratam mal os animais, não lhe batem, não os picam. Se o touro marra é porque faz parte da natureza dele. Eu tenho uma teoria sobre isso. Para mim o forcão era um instrumento de caça. Nos tempos primitivos a única maneira de caçar animais ferozes era com um forcão. Não havia armas de fogo. O ritual em volta do forcão era de agressão e faz-me lembrar rituais ancestrais e uma forma de caçar.»
E aproveita para recordar um episódio quando era seminarista…
«Sendo eu ainda estudante devia ter voltado ao seminário no dia que coincidia com a capeia. Mas entusiasmei-me com a chegada dos touros e fiquei por lá. Mas para meu desconsolo os fiscais da Guarda Civil não os deixaram passar em Vilar Formoso e não houve tourada. Cheguei um dia mais tarde ao Seminário…» …e continuando após uma breve pausa… «As capeias fazem parte daquela vida raiana. Mas para além da festa dos toiros há outros aspectos interessantes que estão associados. É o convívio que se estabelece entre os amigos, as famílias. As capeias estão associadas às festas religiosas.»
– As nossas aldeias estão mais agarradas às tradições religiosas do que no Alentejo?
– Na Beira, na nossa zona é uma zona de prática religiosa regular. Todo aquele ambiente encaminha as pessoas para dentro da igreja. Aqui no Alentejo o indíce de frequência habitual à missa é de 12 por cento. A prática regular será à volta dos 10 por cento (9 são mulheres e um homens). Mas como aqueles que vão à igreja vão por sua iniciativa e eventualmente contrariando o ambiente sociológico que os rodeia logo são mais conscientes da sua fé e da sua prática. Comprometem-se mais com a prática da vida cristã.
– Além da parte religiosa tem no seu percurso iniciativas como o lar para mães solteiras em Portalegre. Há iniciativas sociais misturadas com a pregação religiosa?
– Sobre isso gostaria de dividir a resposta em duas partes. Em primeiro a prática da vida cristã implica também acção social. Ninguém poderá dizer que é um bom cristão se estiver à margem dos problemas sociais. Preocupação com a melhoria de vida dos seus semelhantes consignado no mandamento «Amai-vos uns aos outros». E em segundo a minha condição de bispo sou há seis anos, na Conferência Episcopal, o presidente da Condição da Pastoral Social que tem a ver com as Misericórdias, com centros sociais, com as capelanias dos hospitais e dos estabelecimentos prisionais, com a Cáritas e com a Comissão Justiça e Paz. Em Portalegre adaptámos um edifício de uma quinta que tinha sido doada à diocese há alguns anos, ampliámo-lo e criámos condições para receber adolescentes grávidas que se encontrem em dificuldades. Essa casa está pronta para funcionar. Ainda não tem ninguém em virtude de algumas questões burocráticas por resolver. É uma obra de muito mérito social que a cidade de Portalegre tem apoiado com muito carinho e penso que irá prestar os melhores serviços áquelas que dela precisarem.
E a finalizar…
– Trazemos-lhe um convite para estar presente na XXX Capeia Arraiana da Casa do Concelho do Sabugal que este ano volta à Praça de Toiros do Campo Pequeno…
– Fico feliz por se lembrarem de mim. Os fins-de-semana de um bispo estão sempre muito ocupados. Mas tudo farei para estar presente no dia 31 de Maio na festa dos sabugalenses em Lisboa.
jcl e plb

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