O historiador Adérito Tavares, natural de Aldeia do Bispo, deu no Auditório Municipal do Sabugal uma brilhante lição de História de Portugal. Muito lhe ficou por dizer apesar de o ilustre docente da Universidade Católica se ter limitado ao período em que viveu Joaquim Manuel Correia.

Adérito TavaresAdérito Tavares ilustrou a sua apresentação com imagens projectadas no grande ecrã do Auditório Municipal que ajudaram a melhor perceber o período conturbado de passagem da Monarquia para a República.
Como já tocou está na hora de entrar na «sala de aulas»…
«Vamos iniciar esta análise histórica na chamada segunda parte da Dinastia de Bragança onde reinaram D. Maria II (1834-53) e D. Pedro V (1853-1861) que assistiram entre 1851 e 1887 ao movimento político que procurou restaurar a tranquilidade em Portugal.
Em 1884 dá-se a Patuleia (revolução da Maria da Fonte) com o Duque de Saldanha (regeneração) a conseguir impor uma certa acalmia no País. Mas D. Pedro V morre em 1861, com apenas 24 anos, e D. Luís sucede ao irmão.
As freguesias do concelho do Sabugal apresentam no Censo de 1864: Aldeia da Ponte, Aldeia Velha e Alfaiates com mais de 1000 habitantes. Quadrazais com 1654 habitantes e Soito 1226 são as freguesias com mais habitantes. O Sabugal regista 1550 habitantes. A Ruvina com 180 habitantes e cerca de 180 habitantes (50 fogos) e Ruivós com 165 são as menos populosas.
Por essa altura aparece António Maria Fontes Pereira de Melo, o grande visionário que faz a modernização de Portugal no século XIX. Surgem o telégrafo, os correios (o primeiro selo em Portugal data de 1853 e regista a morte da rainha embora o selo postal já existisse desde 1840 em Inglaterra) e o telefone.
O surgimento do caminho-de-ferro vai dar o grande contributo para a modernização do País. Em 1856 é inaugurado o primeiro troço entre Lisboa e o Carregado. A Estação do Rossio é inaugurada a 18 de Maio de 1890 em conjunto com o túnel que ainda hoje existe.
Em 1879 foi inaugurada a Avenida da Liberdade por iniciativa de Ressano Garcia formado na escola de Paris.
A praça do Rossio recebeu, por essa altura, o edifício do Teatro Nacional de Almeida Garrett e depois rebaptizado de D. Maria.
A Praça do Comércio ou Terreiro do Paço foi construída após o terramoto de 1755. No centro, em lugar de destaque, a estátua de D. José alinhado com o arco da Rua Augusta que foi concluído no reinado de D. Luís.
Em 1855 (ano da morte de D. Luís) dá-se o ultimato inglês para impedir que Portugal una Angola a Moçambique. O poderio de Inglaterra face à fraqueza portuguesa impõe-se reivindicando a ligação entre a cidade do Cabo e o Cairo.
Quando o ministro dos negócios estrangeiros português pergunta ao homólogo inglês porque não respeitam a velha aliança este responde-lhe com a célebre afirmação: Não há alianças eternas. Eternos são os interesses de sua magestade.
Rafael Bordalo Pinheiro aproveita para caricaturar um catético Portugal que vive do passado perante a vitalidade da Inglaterra que reivindica a posse das colónias portuguesas.
Os republicanos culpam a monarquia do estado a que chegou Portugal e passam a governar em regime de alternância entre o partido progressista e o partido relativista. O Partido Republicano aparece, entretanto, para colocar em causa a alternância no poder entre os dois partidos. A República consolida a sua caminhada mas o Rei D. Carlos reage e confia a João Franco um governo de ditadura com o parlamento encerrado.
Joaquim Manuel Correia referencia nos seus escritos que o infante D. Manuel visitou o Sabugal em 1906.
Nesta época o país tem a população a crescer. As estatísticas indicam um aumento de quatro mihões para seis milhões de habitantes. Nas eleições apenas votam os cidadãos do sexo masculino.
O povo português é maioritariamente pobre e anda descalço. Portugal foi um povo de pé descalço quase até aos anos 60. O romance de Aquilino Ribeiro Quando os lobos uivam foi apreendido pela PIDE (Polícia Política de Salazar) porque o escritor afirma na obra que Portugal é um povo de pé descalço. Eramos um País de pobres e entre 1861 e 1910 para fugir a essa pobreza emigraram quase um milhão de portugueses.
Mas também havia riqueza. António Carvalho Monteiro, um dos mais ricos do País, era conhecido pelo Monteiro dos Milhões. Foi ele quem mandou construir a Quinta da Regaleira.
Os empresários Francisco Grandella e Alfredo da Silva (CUF) vivem nos fins do séc. XIX e princípios do séc. XX e através das suas iniciativas a indústria portuguesa dá os primeiros passos. Mas Portugal é um país rural. Seis em cada dez portugueses vivem da agricultura. A grande maioria dos agricultores vive para comer. Os registos desse tempo apontam a mortalidade infantil e a tuberculose como a principal causa de morte em Portugal.
A taxa de analfabetismo é grande nos anos 20 com cerca de 60 em cada 100 portugueses sem saberem ler nem escrever. Nesse tempo a educação significa poder, um poder exclusivamente masculino.
Em 1900 o Sabugal tem 89 freguesias, 33 mil habitantes dos quais 86 por cento são analfabetos.
Outro homem contemporâneo de Joaquim Manuel Correia é o dr. Sousa Martins que ficou ligado à cidade da Guarda tendo morrido, em 1904, vítima da tuberculose.
Os republicanos portugueses estão em ebulição e dá-se o regicídio em 1908. Por toda a Europa e em especial na imprensa francesa a morte do Rei D. Carlos é considerada um assassinato bárbaro. Recorde-se que a rainha era francesa. O funeral de D. Carlos é feito no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.
D. Manuel é muito jovem mas os seus apelos à acalmia popular resultam apenas por dois anos. Liderada pelos militantes da Carbonária a proclamação da República faz-se da varanda da Câmara Municipal de Lisboa por José Relvas. O escudo, a bandeira e o hino (composto para protestar contra o ultimato inglês) transformaram-se em símbolos da República.
O republicano Afonso Costa é um anti-clerical. Também em Aldeia da Ponte havia um colégio jesuíta que foi fechado em 1910. A revista Ilustração Portuguesa desse tempo traz uma reportagem em que aparece o administrador-delegado do Sabugal a encerrar o colégio de Aldeia da Ponte.
Quando Portugal está mergulhado na I Guerra Mundial (Batalha de La Lys em 1918) dão-se os acontecimentos de Fátima.
É implantada uma nova ditadura em que a cara visível é Sidónio Pais assassinado após um ano de governação. Sucede-lhe António José de Almeida (1919-1923) tendo sido o único presidente que cumpriu o seu mandato na sua totalidade. em clima de grande estabilidade.
Entra em cena o jovem Salazar que, como ministro das Finanças, consegue eliminar o défice crónico do País.
No discurso de tomada posse como presidente do Conselho de Ministros aparece acompanhado por Duarte Pacheco (ministro das obras públicas) e António Ferro (imagem de Salazar). Ficou célebre a lição de Salazar: Deus, Pátria, Família (a trilogia da educação nacional). Nós queremos um estado forte. Votai a nova constituição’ podia ler-se no cartaz da Almada Negreiros encomendado pela União Nacional.»
A finalizar Adérito Tavares deixou, ainda, alguns dados sobre o concelho do Sabugal em 1930: «Casamentos, 351 e divórcios, 1. Nasceram 1323 crianças legítimas e apenas 3 por cento nasceram fora do casamento. A natalidade regista 34 por mil e a mortalidade 24 por mil.»
Brilhante lição de História protagonizada por Adérito Tavares que incidiu em especial sobre o período da vida de Joaquim Manuel Correia.
(continua)
jcl