Durante as férias da Páscoa, numa tarde de lazer quando passeava pela Guarda, encontrei um amigo professor que já não via há muitos anos. Na alegria normal do reencontro deparei-me com uma pessoa completamente decepcionada com a profissão.

José Robalo – «Páginas Interiores»Dizia-me então o meu amigo: «Como sabes sou efectivo numa escola, tenho alguns anos de carreira, mas não aguento mais esta vida. Estou com uma licença sem vencimento, mas quando terminar esta licença, não volto à escola. Estou disposto a fazer tudo na vida, menos continuar esta safra de professor… Não quero mais ensinar. A decisão está tomada, vou deixar a Escola.»
Com desassombro e amargura na voz, este meu amigo no limite da desconsideração diária e da falta de respeito a que está sujeito, além da pressão, fez aquilo que muitos e bons profissionais já pensaram fazer, mas que ainda não tiveram coragem: abandonar uma carreira que com ilusão num determinado momento abraçaram, mas que tem cada vez mais escolhos. Longe vai o tempo em que o professor era um profissional considerado e respeitado.
O futuro de qualquer país depende da política educativa que é definida e do investimento que nela fazemos, porque é na educação que assenta a formação dos nossos filhos e das gerações que nos governarão, como garante de um país moderno e desenvolvido. Um euro aplicado em educação tem seguramente um efeito multiplicador em termos de investimento futuro, embora os seus efeitos não sejam perceptíveis no curto prazo e como tal não dão votos.
«A História da Moral»Sem uma educação de qualidade não existe futuro. Sendo assim a coisa tão séria, não tenho dúvidas que deve existir uma aposta muito forte na educação por parte de qualquer governo que se preze, onde o professor e a escola sejam o eixo central de qualquer sistema educativo. O professor deve ser valorizado e respeitado, estatutária e profissionalmente. Desvalorizar o papel do professor, fragilizando-o perante os pais, os alunos e a opinião pública em geral é um erro tremendo, que vai ter custos muito elevados. Há mentiras que à força de serem ditas ganham foros de verdade. A imagem do professor assim exposta perante a opinião pública pode levar décadas a recuperar e apagar. Os custos são muito elevados.
A escola democrática de qualidade tem que contar com o contributo indispensável destes agentes, elementos essenciais numa escola que se quer inclusiva e com igualdade de oportunidades para todos os alunos à entrada e à saída.
Apostar num combate ao défice, cortando meios às escolas e ao sistema educativo, desvalorizando a carreira docente, é cercear e bloquear o desenvolvimento e o futuro do país, que tem que ser mais competitivo e dinâmico, numa clara aposta na formação e na educação.
Era Aristóteles que afirmava na sua Metafísica que «Todos os homens desejam por natureza saber», fazendo assim parte da natura rerum esta curiosidade pelo conhecimento, sendo certo que sempre existe um pedaço de estupidez mesmo na mente do homem mais sábio.

:: :: :: ::
Para ler: Poderá ser um bom fim-de-semana para revisitar a obra poética do surrealista Alexandre O’Neill, nomeadamente, «Poesias Completas» da Imprensa Nacional Casa da Moeda. (1951-1986), 3.ª edição, 1990.
«Les somnambules», de Arthur Koestler.
:: :: :: ::
Para ouvir: «Travadinha, Feiticeira de Cor Morena», Le Violon du Cap Vert, Ruda Records.
«Ser Solidário», José Mário Branco, EMI–Valentim de Carvalho.
«Cantares do Andarilho», José Afonso, Moviplay, SA.
:: :: :: ::

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com