«Um raminho! Dois raminhos! Três raminhos!» Foi em forma de verso espontâneo que o escritor Manuel Leal Freire, natural da Bismula, saudou os presentes no Auditório Municipal do Sabugal. Misturando o discurso fácil com o fácil versejar a sua intervenção histórica foi outro dos momentos altos das comemorações. O politólogo Manuel Meirinho falou de custos e oportunidades no Sabugal de hoje.

Manuel Leal Freire e Manuel MeirinhoA saudação veio ao jeito de folclore ribacodano porque no sentir de Manuel Leal Freire o raiano tem uma noção maior da Humanidade.
«Um raminho! Dois raminhos! Três raminhos / A minha voz vai soar / por cima da rosa dos ventos / Um raminho! Dois raminhos! Três raminhos!»
Feita a saudação ficou estabelecida uma antecâmara para aquilo que disse de seguida um dos maiores escritores raianos apoiado numa espécie de título por si criado «A Beira raiana, a família, a grei e a crença».
«Na Ruvina os padres apregavam a carta e guia de casados de Francisco Manuel de Melo. Havia os três casamentos: de Deus, do diabo e da morte.
O amor para ser amor tem que durar a vida inteira. Quem amou uma segunda vez é porque não amou da primeira», sentenciou Leal Freire. Continuando…
«A família era, nesse tempo, o esteio. A educação começava muito antes do nascimento do filho. A Ruvina, terra de onde é natural o nosso homenageado de hoje, foi sempre uma terra merecedora das graças de Deus. Joaquim Manuel Correia teve um um tio padre que iniciou a sua formação intelectual. A Igreja não se limitava a ensinar as verdades da fé porque até 1950 a escola não tinha uma função muito efectiva. Havia escola, às vezes em casas particulares, mas nem toda a gente a frequentava. Para aprender a ler e a escrever era necessário ir à catequese. O padre ensinava o trívio (gramática, retórica e dialéctica) e o quadrívio (aritmétical, música, geometria e astronomia) o conjunto das artes liberais. Havia um papel formativo (não digo repressivo) sobre os indivíduos.
Nesse tempo, início do século XX, havia muito solidariedade entre as pessoas. Ardia uma meda e todos colaboravam, havia as irmandades e as confrarias que colocavam fundos à disposição dos irmãos porque nesse tempo não havia bancos.»
E terminou com ideias-chave declamadas em frases soltas:
«Há uma força que nos impele. O povo somos nós todos. Os mortes governam os vivos. A história é mesmo isto. Pela história se constrói o futuro. Com a memória dos mortos que é lição para os vivos.»
Outro dos participantes na palestra foi o politólogo soitense Manuel Meirinho que abordou e analisou o «Sabugal de Hoje» e a vertente da Interioridade.
«Vamos falar de modelos de desenvolvimento para o Sabugal que, na minha opinião, não carrega nenhum fardo específico da Interioridade.
No ponto 1, o Modelo estrutural de desenvolvimento analisamos os modelos dos grandes eixos de desenvolvimento entendendo o País numa linha de três eixos.
Os indicadores sociais indicam que à data do nascimento de Joaquim Manuel Correia havia cerca de 12 mil residentes, ou seja, praticamente a mesma população que existe actualmente. Em 1960 atinge um pico de 36 mil habitantes altura em que se inicia a emigração, principalmente para França.
A questão de fundo ou, se preferirmos, o problema de fundo sobre como devemos encarar o problema da desertificação? Se é uma ameaça ou uma oportunidade? Tem uma resposta simples mais complexa. Este problema é uma oportunidade que temos de saber aproveitar.
1.º Comemoramos os 150 anos do nascimento de Joaquim Manuel Correia. Hoje é um tempo novo. O grande desafio é o tempo novo. A oportunidade reside na diferenciação, ou seja, criar um produto novo para um tempo novo com gestão de médio e longo prazo. Aqui o papel  central passa pelo Governo local, pelos autarcas regionais.
Nos municípios das grandes urbes há uma grande pressão imediatista que não acontece no Interior. É uma vantagem. Os políticos podem decidir com políticas que não obrigam a resultados imediatos.
O que não desertifica são os recursos físicos, materiais e sociais que têm que ser aproveitados para fazer a diferença. Não é possível contrariar os capitais móveis, ou seja, as pessoas. É fundamental valorizar o que temos físico. É fundamental apostar e promover os recursos naturais. Esses não migraram. Estão cá e tem cada vez mais qualidade.
O nosso grande desafio é aproveitar e promover os produtos do Sabugal. Recompor, modernizar e reposicionar o produto regional raiano.»
Mais uma abordagem especializada ao problema da desertificação e da Interioridade, desta feita, pelo politólogo Manuel Meirinho.
(continua)
jcl

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