Inicio esta crónica, com este legado histórico, escrito no local pelo nosso saudoso e grande escritor português, também amigo de Sortelha, gravada sobre uma folha de bronze e colocada no edifício da Escola desta bonita aldeia histórica.

Joaquim Ricardo («Ideias Soltas»)«Sortelha, 21 de Agosto de 1977 – O que mais me dói na pátria é não haver correspondência no espírito dos portugueses entre o seu passado e o seu presente. Cada monumento que o acaso preservou inteiro ou mutilado – castelo, pelourinho, igreja, solar ou simples fontanário – é para todos nós uma sobrevivência insólita, que teima em durar e em que ninguém se reconhece. Olhamos os testemunhos da nossa identidade como trastes velhos, sem préstimo, que apenas atravancam o quotidiano. Que memória individual ou colectiva se relembra nesta crónica ameada?» (Miguel Torga)

«O dia de Miguel Torga» – 12 de Agosto, lembrança do Professor José Cymbron, pretende celebrar, em várias partes do País, a data do seu nascimento, que este ano comemora 100 anos. E, no ano da inauguração deste evento caberá a esta jóia da beira organizar e receber todos os amigos do poeta.
A conversa, com o meu grande amigo de infância Luís Paulo na sua loja dedicada a produtos regionais, artesanato e velharias esteve animada e foi ocasião para reviver os anos de juventude onde recordamos os bailaricos ao som do acordeão manuseado habilmente pelo Sr. César, também ele natural de Sortelha ou pelo Sr. Agostinho, da Azenha. Mas, sem demora, o assunto da conversa alterou-se naturalmente e claro, como Presidente da Junta de Freguesia e grande dinamizador do turismo desta aldeia foi pouco a pouco (porque por aqui o tempo corre devagar) enumerando os principais projectos que tem em mente e dos problemas que assolam a sua freguesia.
A sede do extinguido concelho em 1855 – o de Sortelha – tem no turismo a sua principal actividade. Com efeito, a antiga vila fervilha de actividades ligadas ao turismo, sendo o artesanato, a restauração e o turismo de habitação as que mais se destacam. Aos fins-de-semana, em especial, os restaurantes e as lojas ligadas ao artesanato enchem-se de visitantes e a aldeia transforma-se em grande azáfama. Porém e como fez questão em destacar, é urgente a instalação de um posto de «Multibanco» pois por vezes não se faz negócio por falta de dinheiro vivo e o abastecimento deste precioso bem, fica a mais de 12 quilómetros, na sede do actual concelho, na cidade do Sabugal. Fizeram-se já algumas diligências junto de entidades financeiras instaladas na sede do concelho, mas até agora resultaram infrutíferas.
A conversa estava animada mas de repente, com uma alegria contagiante estampada no brilho dos seus olhos saltou do «mocho» onde se encontrava sentado para me dizer que no próximo dia 5 de Julho irá realizar-se naquela vila e no percurso que a liga à Estrada Nacional, Sabugal-Caria, uma corrida de carros da marca «Porsche» e em Setembro haverá uma concentração nacional também daquela prestigiada marca automóvel.
Por outro lado e como é do conhecimento geral, Sortelha faz parte das doze aldeias históricas de Portugal, única escolhida no concelho de que faz parte, posicionando-se num honroso segundo lugar do conjunto destas aldeias, em número de visitantes, contando-se no ano transacto com mais de 80 000. Este conjunto de aldeias constituíram-se em associação, tendo sede móvel, cabendo a Castelo Rodrigo a inauguração dessa rotatividade.
Aldeia Histórica de SortelhaApesar da aldeia ser líder na actividade turística sofre como as demais do concelho do problema da falta de ligação aos principais eixos rodoviários. A ligação à A23, em via rápida, ao território do concelho, num traçado que teria início em Caria e daí em direcção à fronteira de Vilar Formoso, passando junto às localidades de Casteleiro, Santo Estêvão e sede do concelho iria potenciar o desenvolvimento destas aldeias e o turismo de Sortelha. A ligação que se encontra projectada pouco irá beneficiar a maior parte do concelho e a sua concretização será difícil já que envolve outra entidade (Câmara de Belmonte), que suportarão custos no seu território e nada irão beneficiar com esse traçado. Por outro lado (pasme-se!) para quem vem na A23, não tem qualquer placa indicativa da aldeia histórica mais visitada de Portugal? Têm-se feito algumas diligências para colocar sinalização adequada mas esbarra-se na teia burocrática das entidades competentes. Mas a luta vai continuar?
As já célebres «Águas Radium» e os seus cerca de 30 hectares de terras circundantes, em ruínas desde que abandonadas pelos antigos proprietários ingleses que as deixaram vender em leilão, por «tota-e-meia» continuam à espera de investidor abastado para ali fazer algo que traga à região os tão desejados postos de trabalho. Fala-se agora de um grupo de chineses que estará interessado naquele local para ali instalar um grande negócio – não se sabe ainda qual?
Por último falou-se da desertificação já que esta Aldeia não foge ao problema geral que afecta todo o concelho e também a região. É um problema cuja resolução, passará por um esforço nacional na tomada de politicas que visem minorar o problema e não agravá-lo. Concordámos ambos que muitos dos seus habitantes que deixaram estas terras em busca de melhores condições de vida, rumo à Europa, principalmente França e Alemanha ou rumo ao litoral português, principalmente Lisboa, agora reformados, facilmente regressariam às suas origens se o sector da saúde fosse eficiente, pois o que principalmente prende ainda aos locais de acolhimento é o sistema de saúde. Se nas suas terras de origem tivessem disponíveis os mesmos serviços regressariam certamente e então povoariam novamente as nossas aldeias e o comércio e a indústria regressariam também em força. Temos assistido ultimamente ao desmantelamento das poucas e precárias unidades de saúde existentes e em troca o governo oferece às empresas que aqui se instalam, benefícios fiscais que se traduzem na redução da taxa de IRC, isto é. Tiram-nos o pouco de bom que tínhamos e para nos calarem adoçam-nos a boca com benefícios fiscais? Política errada! Ao invés se criassem condições óptimas nos cuidados de saúde, muitos dos seus habitantes regressariam às suas terras de origem e as empresas instalar-se-iam na mesma pois os benefícios fiscais concedidos não resultaram pois não são determinantes! Afinal onde se instalaram recentemente grandes empresas multinacionais, como é o caso da IKEA e outras?
Por tudo quanto foi dito, conclui-se que Sortelha está viva e recomenda-se a sua visita. É a rainha do turismo concelhio e das aldeias históricas portuguesas merecendo, portanto, toda a atenção dos responsáveis autárquicos que deverão investir os adequados recursos financeiros para melhorar a qualidade do serviço prestado pelo sector comercial local, através da promoção de cursos de formação e o desbloqueamento de algumas burocracias conducentes à instalação de adequados meios de pagamento, como é o caso do Multibanco. Por outro lado, as grandes vias rodoviárias, passam-lhe longe e no local mais próximo que é Caria, nem sequer existe sinalização adequada indicando a sua direcção, pelo que não será difícil a autarquia conseguir-lhe também esta benesse, ajudando a desbloquear os obstáculos burocráticos? Por último e globalmente, a autarquia deverá sensibilizar o governo central para garantir a qualidade nos cuidados de saúde no concelho, tendo em vista o regresso de antigos residentes e combater, assim, o fenómeno da desertificação.
«Ideias Soltas», opinião de Joaquim Ricardo

dr_jfricardo@hotmail.com

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