O mestre Pinharanda Gomes, filósofo e pensador, que mantém aqui no Capeia Arraiana uma crónica semanal denominada «Carta Dominical» dispensa apresentações. Natural de Quadrazais, no concelho do Sabugal, é um dos expoentes vivos da cultura portuguesa.

Jesué Pinharanda Gomes«Na casa de minha tia na Guarda havia livros socialistas e republicanos» esclareceu no início da conversa no Auditório Municipal, o palestrante Jesué Pinharanda Gomes.
E sem mais interrupções passamos ao discurso directo…
«Em casa dos meus primos Bigotte havia três livros. Foram os primeiros três livros que eu li na minha vida. Um era o «Terras de Ribacôa – Memórias do Concelho do Sabugal» que tinha anotações na edição final, o segundo era «Maria Mim», de Nuno de Montemor – na Guarda faziam a diferença entre o capelão e o escritor – e o terceiro «A Rosa da Montanha», de António José de Carvalho, que foi dedicada à minha tia Bigotte.
Pouco dado às ficções (a maior ficção é a vida real) interessei-me muito mais pelas «Memória do Concelho do Sabugal», de Joaquim Manuel Correia.
«As Memórias» tiveram uma grande influência na minha pessoa. Dei-me conta que as coisas que eu sabia da minha terra, de as ouvir, de as ver, estavam no livro.
Fiz a minha primeira tentativa como escritor aos 11 anos. Foi a «Monografia da aldeia de Quadrazais». Seguiram-se as «Práticas de Etnografia» (1966) e «Memórias da Ribacôa e da Riba-Serra».
Em 1964-65 desenvolvi contactos por correspondência para o dicionário de escritores do distrito da Guarda. A lista telefónica é (era) um excelente elemento de estudo geneológico.
Contactei Fernando Correia, filho de Joaquim Manuel Correia, e este fez-me a revelação da existência do manuscrito do romance «Celestina» e deu-mo a ler. Em finais de 1965 fiquei mais longe de Lisboa e só voltei a ouvir falar de Fernando Correia em 1966 aquando do seu falecimento.
Foi um projecto meu que eu não consegui concretizar. Mas a prova de que eu devolvi o manuscrito está aqui hoje. (sorrisos da assistência).
Joaquim Manuel Correia nasceu numa época em que pertenciamos à diocese de Pinhel que teve quatro bispos mas nenhum lá viveu.
Como não havia seminário menor na diocese funcionava em Vale de Espinho, junto do pároco, o verdadeiro seminário onde os rapazes da aldeia aprendiam. Dá-se o primeiro contacto de Joaquim com o padre Morcela de Vale de Espinho.
António Mendes Belo criou um curso de hermenêutica e era o reitor do seminário de Pinhel quando o nosso homenageado de hoje que por lá passou. António Mendes Belo foi posteriormente nomeado cardeal-patriarca.
É a época em que se deram as aparições de Fátima – reconheço que sou um apaixonado de Fátima – porque mesmo sendo  mentira eu acreditava em Fátima. Como terá sido a reacção de Joaquim Manuel Correia em 1917 às aparições de Coimbra? Era estudante em Coimbra na Universidade de Direito num momento em que se aprofundaram as influências do positivismo jurídico que abriu as portas ao republicanismo. A semente do republicanismo foi lançada nesse tempo em Coimbra. A imagem da República é uma mulher. A pátria, como mátria, como mãe.
A sua obra é apenas etnográfica ou é algo mais? Mesmo na Igreja a teologia tinha sido substituída pela sociologia. A estrutura mental da obra de Joaquim Manuel Correia é uma estrutura de uma antropologia sociológica porque ele assume não apenas os dados do folclórico mas tudo quando anda á volta da vida dos povos. As lendas, os adágios, os modos de falar e vestir. É um verdadeiro ensaio de antropologia sociológica aplicada ao concelho do Sabugal.
O que mais releva nesta obra dele é a etnolinguística que se percebe transferida da linguagem popular para uma linguagem literária.
Por essa altura já estava grávido da «Rosa da Montanha» e gostei ainda mais do «Celestina». A Serra da Malcata e a Marvana que foi refúgio dos revoltosos espanhóis. Destaco o capítulo 55 sobre a romaria da Senhora da Póvoa. É para mim o mais bonito.
O episódio que retrata Joaquim Correia não tem a sentimentalidade que Nuno Montemor transmitia. O autor ruvinense era mais disciplinado. Retrata a importância da Senhora da Póvoa. Viva a Velha! Viva a Nova!
A ponte do Sabugal era um símbolo. A passagem da ponte era um símbolo. A simbologia da ponte dava um congresso.
A obra de Joaquim Manuel Correia está disponível para fazer a ponte e a transposição para os tempos modernos. Nós, de Ribacôa, talvez deixássemos de ser aquilo que sempre fomos: una hermandad.»
Final da intervenção de Jesué Pinharanda Gomes.
(continua)
jcl

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