– Quase – Este advérbio caracteriza na perfeição a mentalidade e incapacidade sistémica para concretizar.

José Robalo – «Páginas Interiores»É frequente justificarmos os insucessos com este quase, como que numa tentativa de desresponsabilização pelos fracassos, tentando imputar a responsabilidade para terceiros fugindo ao julgamento da opinião pública. Diz então o nosso povo que «a culpa morreu solteira». Não será chegado o momento de num acto de maturidade cívica, avaliarmos o desempenho dos outros com base na sua capacidade ou não de realização, afastando subjectivismos e afectividades?
Na verdade, como alguém escreveu, quem quase vive já morreu e quem quase morre ainda vive, pelo que devemos utilizar mais horas a fazer do que a planear e nunca adiar a vida. Se o meio-termo fosse plausível, o mar não teria ondas.
Uma das gerações mais criativas e atormentadas poeticamente foi a geração da Orpheu, o grupo responsável pela introdução do Modernismo e do Futurismo nas artes e letras portuguesas no início do século XX, numa tentativa de «dar uma bofetada no gosto público». Fizeram parte deste grupo como é consabido, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa Rita Pintor.
Mário de Sá-Carneiro no seu poema «Quase», desenvolveu densamente esta realidade, escrevendo:

Mário de Sá-CarneiroUm pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
Quasi o princípio e o fim – quasi a expansão …
Mas na minh´alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

Nos finas do século XIX, ninguém melhor que o grande Eça de Queiroz, no seu romance «O Crime do Padre Amaro», define esta realidade de forma perfeita. No final do romance e de todo o enredo, perante uma sociedade anquilosada, cada vez mais afastada do resto da Europa, no Largo do Loreto em Lisboa onde apenas se vislumbram sinais do Portugal decadente dos finais do século, as classes sociais responsáveis por toda essa degradação, junto à estátua de Luís de Camões que ocupa o centro do Largo e numa conversa animada criticam «todos aqueles que se queixam, que dizem tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento…» Estes personagens nem sequer têm categoria para se encostar à estátua do grande Camões, quase se encostando às grades que cercam a estátua! Eça, o mestre da prosa de bom sabor, utiliza este recurso estilístico para de forma perfeita nos dizer que o «quase» é o sentimento dos mentecaptos.
Será que o atraso em que nos encontramos se deve essencialmente ao facto de sermos governados por maus políticos, que com frequência se refugiam neste quase à medida daqueles que não foram talhados para o cargo que ocupam?
O grande poeta de língua castelhana Ruben Dario, escrevia,

Quasi, quasi, me dissiste
Que quasi , quasi te he querido,
De no ser por el del quase,
Quase me caso contigo!

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Para ler: Poderá ser um bom fim-de-semana para revisitar a obra poética de Mário de Sá-Carneiro, nomeadamente, «Obra poética de Mário de Sá-Carneiro» Editorial Presença, Lisboa, 1985.
«O crime do Padre Amaro», de Eça de Queirós, Livros do Brasil.
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Para ouvir: «Bebo & Cigala», Lágrimas Negras, BMG.
«Joaquin Rodrigo – Concierto Aranjuez», Narciso Yepes, Deutsche Grammophon.
«Dollar Brand v/ Abdullah Ibraim», Live at Montreux 1980.
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Para ver: «I’m your Man», DVD de Leonard Cohen, ed. Lionsgate, Cameo.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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