José Robalo – «Páginas Interiores»Apesar de ter nascido fora do concelho a vida de Brás Garcia de Mascarenhas está ligada ao Sabugal. Motivo mais do que suficiente para que este poeta-soldado, seja reabilitado e estudado, desenhando-se um roteiro turístico da sua vida e locais que frequentou.

Os bosques, em que está, vê deleitosos
Vê nascer entre os rios caudalosos
Nobre Vila em Península guerreira
Que com três edifícios sumptuosos
Ponte, Castelo, Igreja, honrando a Beira,
Enobrece Dinis, segundo Brigo,
Novo Restaurador do Reino antigo
Viriato Trágico, Brás Garcia de Mascarenhas

Numa qualquer Feira do Livro chegou-me às mãos um estudo de investigação histórica da autoria do Dr. António de Vasconcelos, sobre a vida de Brás Garcia de Mascarenhas (1596-1656) um trabalho do Instituto de Estudos Históricos e Filosóficos da Faculdade de Letras de Coimbra, agora com a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian.
Sou daqueles que pensam que só poderemos alicerçar o presente e preparar o futuro se conhecermos o nosso passado. Brás Garcia de Mascarenhas apesar de ter nascido em Avô, concelho de Oliveira do Hospital, tem a sua vida ligada ao Sabugal.
Autor de um poema épico, o Viriato Trágico, que escreveu no final dos seus dias depois de ter estado detido no Castelo do Sabugal, acusado de traição, acusação que se veio demonstrar ser falsa e como tal libertado.
Como militar Brás Garcia de Mascarenhas, foi capitão de infantaria e governador de Alfaiates por nomeação do general Álvaro de Abranches no dia 14 de Fevereiro de 1641. A primeira tarefa do nosso herói foi tomar conta do castelo e guarnecê-lo, por se encontrar muito carenciado de obras de restauro. Esta fortaleza poderá estar assente sobre vestígios romanos, podendo assim ter sido povoação romana.
Como se sabe Alfaiates passou para domínio português no reinado de D. Diniz no ano de 1296 com outros territórios da Riba Côa e enquanto foi leonesa chamava-se Castillo de Luna. Aparentemente terá sido construída uma fortaleza defensiva no reinado de D. Diniz, que se encontrava em ruínas, tendo sido recuperado e construído o novo castelo, que hoje conhecemos sob o impulso de Braz Garcia no séc. XVII, com indícios de ter sido construída em pouco tempo (três meses) e sem recursos. O nosso herói refere esta situação no seu Viriato Trágico:

Brás de Mascarenhas (fotos de Ricardo José Bairras Fernandes, n.º 12, 8.º B da Escola do Sabugal)O Castello de Lua, que fizera
A ferrugenta paz Lua mingoante,
Em três mezes somente considera
Regular Epiphéria o caminhante.

É espantosa a actividade de Brás Garcia de Mascarenhas na defesa dos territórios da nossa raia a partir de Alfaiates. Não querendo ser maçador aconselho o amigo leitor a consultar a obra do Dr. António de Vasconcelos, caso veja nisso interesse, sobre a vida deste herói e concluirá que participou activamente nas lutas pela independência contra os espanhóis, ao serviço de D. João IV, defendendo as populações indefesas da raia nomeadamente, Aldeia da Ponte, Forcalhos, Fóios, Aldeia Velha, Nave e Aldeia do Bispo.
Ao comando de 183 homens os mais deles gente nobre, todos luzidios e alentados, que ficaram conhecidos por Companhia dos Leões da Beira, o nosso herói fez diversas incursões por território castelhano conquistando nomeadamente Albergaria, Aldea-del-Obispo, Fuentes, El Payo, Espeja, Eljas, Navas – Frias, S. Martin de Trevejo, Valverde e Casillas. É verdade que Brás Garcia, disfarçado de mendigo fez um prévio reconhecimento de todos estes burgos, pedindo «Una limosna por amor de Dios».
Este foi tempo em que o nosso poeta e capitão, fez reconhecimento do território, num descanso que terminou em Agosto de 1641.
Escrevia então:

Cujas metas, brigas* registando
Solitário os perigos desistima,
Da tumba ao berço, donde nasce, morre
O turvo Cuda, cuydadoso corre

* Brigas= castelos ou fortalezas.

É verdade que Brás Garcia conhecia bem o território de toda a Raia melhor que ninguém e com trocas permanentes de prisioneiros, foi ganhando algum relacionamento com as autoridades leonesas, o que fez com que a partir de determinado momento tivesse sido alvo de invejas, suspeitas, acusado e preso por traição.
Detido, cumpriu prisão na torre de menagem do castelo do Sabugal. Diz-se que terá sido nesse momento que escreveu o Viriato Trágico, poema épico todo em verso e que para alguns autores da época, em inspiração e temática nada fica a dever aos Lusíadas, sendo certo que os nossos antepassados e a nossa geografia não são esquecidos neste poema.
D. João IV, ao ler esta obra terá ficado encantado e convencido da inocência do nosso herói e deu ordem para a sua libertação imediata.

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Para ler: Eurico o Presbítero, de Alexandre Herculano.
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Para ouvir: «Cantigas D’Amigo», do grupo La Batalla, com direcção de Pedro Caldeira Cabarl, da EMI.
«Sanfonia do grupo Realejo», do meu amigo Amadeu Magalhães.
«Monteverdi: Ottavo Libro dei Madrigali», concerto italiano Rinaldo Alessandrini, le monde de la musique.
«Monteverdi: selva morale a sei voci», com Bernard Fabre–Garrus, da Editora Naïve.
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Para visitar: Alfaiates com o seu castelo e praça Brás Garcia de Mascarenhas, igrejas e o convento da Sacaparte. Antes, durante ou após a visita recomendamos uma visita ao Bar La Cabaña, onde poderá degustar um bom pata negra e sempre com boas bebidas servidas de forma superior pelo Bino.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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