Depois de publicarmos uma conversa com o poeta da Guarda, Fernando Pinto Ribeiro, damos agora a conhecer um dos seus poemas, que dedicou ao fadista Vítor Duarte, neto de Alfredo Marceneiro.

NAS RUAS DA NOITE
A Vítor Duarte, «Marceneiro III» — Meu padrinho no Fado

O poeta Fernando Pinto RibeiroNo crepitar de estilhaços
de estrelas sobre os espaços
da Lisboa rua em rua —
crucificámos abraços
encruzilhados nos passos
que à noite a lua insinua

Em nossas bocas unidas
sangrámos todas as feridas
dos beijos amordaçados —
salvámos vidas vencidas
que andam na treva perdidas
como num mar afogados

Cegos de sombras e lama
Quando a sede que se inflama
numa inquisição divina —
bebemos o vinho em chama
que sanguíneo se derrama
no candeeiro da esquina

Embriagados de lume
sem dissipar o negrume
do fumo que nos oprime —
rezamos em seu queixume
no cio do meu ciúme
fados do amor feito crime

Crucificamos abraços
encruzilhados nos passos
que a noite nua desnua —
crepitantes de estilhaços
de estrelas quando em pedaços
vêm morrer sobre a rua

Fernando Pinto Ribeiro

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