«Está a fronteira em crise?» foi o tema do debate esta terça-feira, 25 de Março, no Fórum Altitude. As intervenções dos convidados abordaram a crise das regiões fronteiriças portuguesas agravada pelas desigualdades fiscais entre os dois países ibéricos.

Rádio AltitudeFórum da Rádio Altitude debateu esta terça-feira de manhã o tema «Está a fronteira em crise?» tendo convidado para estar presente no estúdio António Baptista, presidente da Câmara Municipal de Almeida.
No lançamento do debate o autarca deu o exemplo de Vilar Formoso que se transformou radicalmente em consequência da abertura das fronteiras no espaço europeu.
«A Guarda Fiscal foi extinta, a estação perdeu movimento, as empresas de despachantes oficiais deslocalizaram-se para as novas fronteiras como Aveiro e a banca com o fim dos câmbios esvaziaram Vilar Formoso de serviços e pessoas Vilar Formoso. Estamos a falar de centenas de funcionários e, por consequência, de famílias com filhos que viviam com solidez económica contribuindo para o progresso local», recordou António Baptista que fez questão de acrescentar mais algumas causas como «a questão do IVA» que foi «drástica para toda a zona mas, mais especialmente para Vilar Formoso, a principal fronteira terrestre portuguesa».
As principais consequências estão à vista para o presidente de Almeida com «os três postos de combustível de Vilar Formoso fechados e nas Fuentes os carros fazem grandes filas para abastecer mas esta crise não se limita aos concelhos mais próximos da Raia, extravasa para o comércio da cidade da Guarda e há pessoas de Celorico da Beira que aproveitam para fazer compras e encher o depósito do lado de lá».
«Temos que nos adaptar. Ainda ontem, segunda-feira, foi um pandemónio em Vilar Formoso porque os camionistas foram impedidos de entrar em Espanha até cerca das nove horas da noite provocando o congestionamento de estradas e restaurantes. Temos que nos adaptar criando condições para que a região não seja um local de passagem. Os atoalhados que os espanhóis consumiam há uns anos está fora de moda. É preciso que os comerciantes portugueses se adaptam aos novos tempos e às novas tendências da sociedade espanhola», lembrou António Baptista concluindo que «já houve muitas crises e sempre as soubemos ultrapassar mas é necessário reclamar o investimento público e sentir vontade na iniciativa privada em parceria com as autarquias».
Na sua intervenção telefónica para o programa o presidente da Junta de Freguesia de Vilar Formoso, Domingos Cerqueira, defendeu que «a fronteira está em crise. É um problema que se arrasta desde a entrada do euro. Deixou de haver peseta, deixou de haver escudo e, acima de tudo, tem a ver com a diferença percentual entre o IVA português e espanhol».
Um bancário que trabalha na Guarda e vive em Vilar Formoso alertou para o facto das viagens esgotadas nas férias das Páscoa serem reflexo do desaparecimento da classe média em Portugal. Para ele «as minas de volfrânio, a guerra civil espanhola, o contrabando e a emigração ajudaram a desenvolver Vilar Formoso mas, agora, as soluções passam por parcerias entre o Governo e os municípios raianos. Há que dar condições favoráveis à Beira Interior para convidar os empresários a virem instalar as suas empresas».
O empresário espanhol proprietário das Galerias Gildo com estabelecimentos dos dois lados da fronteira entrou no programa para dizer que «também sente a crise». «Antigamente havia uns certos produtos que eram mais procurados pelos clientes portugueses. Agora, desde a carne aos congelados compram tudo. Mas a Espanha também está a atravessar um momento menos bom…», alertou.
Paulo Manuel, presidente da Associação Comercial da Guarda interveio apontando soluções: «Temos políticas que não favorecem o investimento no Interior. Vilar Formoso pode ser, pela sua localização, um espaço de oportunidades. O Turismo e o apoio logístico ao transporte de mercadorias são sectores que apontamos como soluções a curto e médio prazo.»

Temos tudo. Quando os da Praça do Comércio em Lisboa dizem que estamos longe devemos ter coragem para dizer que estamos mais perto. Mais perto do mercado ibérico, mais perto da Europa, temos cada vez melhores auto-estradas até à fronteira e uma linha de caminho-de-ferro privilegiada que desde sempre levou e trouxe os nossos emigrantes e mercadorias. Mas mais do que de uma crise temos que saber falar das oportunidades que podem mudar o fado raiano.
jcl