A «ronda» era feita pelas ruas com o tocador acompanhado pelos mordomos, os foguetes e a rapaziada do costume anunciar o momento alto da festa, o baile, onde era tolerado algum atrevimento e que servia para consolidar e iniciar namoros e noivados.

José Robalo – «Páginas Interiores»«Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta…Vai morrendo o Largo. Aos domingos, é ainda maior a dor do Largo moribundo. Vão todos para os cafés … O Largo fica deserto sob a ramaria das faias silenciosas.»
O Fogo e as Cinzas, de Manuel da Fonseca.

Corria o ano de 1985, quando das mãos do seu autor me foi oferecido «O Fogo e as Cinzas», com dedicatória que diz: «Para o José Robalo este Fogo e as Cinzas, cordialmente do Manuel da Fonseca.»
Trata-se de um livro de contos, cuja temática é a vida alentejana, que fácilmente poderemos transpôr para a vida do nosso interior raiano. Os nossos largos também estão moribundos, porém vivos na nossa lembrança.
Diferentes estudos que conheço sobre a memória, cito Jean Yves e Marc Tadié, quando no seu livro «Le sens de la mémoire», Paris: Éditions Gallimard, 1999, afirmam que todo relato do passado falsifica as recordações, pois o acto recordativo não distingue com clareza o verdadeiro do falso.
Equacionada esta advertência,
No imaginário da minha infância passada na pacatez da Ruvina, recordo com alguma nostalgia o som e a presença do acordeonista, que em momentos fulcrais se transformava no centro da vida da aldeia. Nas festas e uma vez terminada a componente religiosa com as procissões e a missa, a parte profana era preenchida na sua totalidade por este personagem, que com um acordeão a tiracolo, normalmente de uma marca italiana, calcorreava as ruas da aldeia anunciar o baile que se centraria num dos seus largos.
A «ronda» era feita pelas ruas com o tocador acompanhado pelos mordomos, os foguetes e a rapaziada do costume anunciar o momento alto da festa, o baile, onde era tolerado algum atrevimento e que servia para consolidar e iniciar namoros e noivados.
Na minha memória de infância guardo a imagem do tocador sentado numa cadeira, normalmente sobre uma grade de cervejas, num largo à sombra de um freixo, desfiando modas. Por vezes o suor escorria-lhe da testa colocando então um lenço das mãos por dentro da boina, para aliviar o incómodo, continuando a tocar. De quando em vez, anunciava «Esta é à inglesa!» «Esta é a roubar!». Terminada a moda as raparigas recolhiam para junto das mães aguardando nova moda e profundamente desejosas de serem convidadas a mais um pé de dança pelo seu predilecto.
Ti António Pereira, de RendoCorria assim a vida, pacata e mansamente, quando esta quietude foi quebrada com o aparecimento e generalização dos grupos musicais de influência pop e mais tarde os organistas, tendo o concerto de acordeão caído em desuso.
O Município do Sabugal, no ano 2000 resolveu dar «uma pedrada no charco» e organizou o festival de acordeão e de tocadores de realejo, com algum sucesso tendo editado um disco, designado «Festival de Acordeão… e tocadores de realejo», tudo com recurso à prata da casa, homenageando assim estes tocadores.
Fui encontrar um destes personagens, o ti António Pereira de Rendo, hoje com 76 anos e que por necessidade foi emigrante em França. «Comecei a tocar acordeão com 15 anos, por curiosidade e por gosto; os meus pais compraram-me um pequeno instrumento, que mais tarde trocámos por um mais a sério; foi preciso muita insistência e treino, sozinho com o instrumento, nas tentativas e erros; a vontade de aprender era enorme. Quando ia para os trabalhos do campo, nomeadamente a guardar as vacas levava o instrumento e treinava.»
Refere-nos que «quando era garoto sempre gostou de ver os acordeonistas tocar nos bailes; ficava encantado». Mais tarde e quando já sabia uns acordes, os acordeonistas deixavam-lhe experimentar umas modas.
Este autodidacta do acordeão correu todas as aldeias do concelho, tendo sido no seu tempo um dos mais reputados e procurados acordeonistas. Para se organizar um baile, bastavam uma cadeira, uma grade de cervejas e um acordeonista, «pondo a malta toda a dançar e a divertir-se. Na altura a malta era mais alegre e divertida».
Muitas vezes quando terminavam os bailes, porque cumprindo horários decentes nunca se ultrapassariam as 22 horas, a pedido da rapaziada ainda havia tempo para mais umas rondas pela aldeia. «A rapaziada gostava da rambóia e gostava de agradar às raparigas.» Ainda se lembra do seu primeiro cachet: «Recebi pela minha primeira actuação 100$00, o equivalente a 50 cêntimos.»
Com alguma amargura na voz, sempre vai dizendo «que o acordeão já não tem o valor que tinha. Foi despromovido, tendo sido substituído pelos órgãos electrónicos».
Em 1964, emigrou para França, onde ainda tocou num grupo etnográfico local. Regressou a Portugal em 1982. Foi com enorme alegria que recebeu o convite do município para participar no 1º festival do acordeão e participou na gravação do CD, onde tocou valsas e tangos. «Na altura dançava-se melhor do que hoje», diz a esposa que atenta ouve o desfiar das memórias do marido.
Agora toca na Igreja à missa para satisfação do Sr. Padre «e até já o Sr. Bispo me deu os parabéns».
Recorda nostálgico que às vezes a rapaziada vinha «tirá-lo da cama, para organizar mais um baile, ou fazer mais uma ronda. Quando a rapaziada ia ao número, e ficava apta para o serviço militar, lá estava o acordeonista, acompanhar alegria dos mancebos».
Em jeito de despedida diz-nos: «Agora tudo mudou.»

«Ele já não pode ver que o Largo é o mundo fora daquele círculo de faias ressequidas. Esse vasto mundo onde qualquer coisa, terrível e desejada, está acontecendo.»
O Fogo e as Cinzas, de Manuel da Fonseca.

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Para ouvir no fim-de-semana: «Festival do Acordeão …e Tocadores de Realejo», edição do Município do Sabugal e que poderá encontrar no Auditório Municipal, Posto de Turismo e Monumenta – Casa do Castelo, no Sabugal.
«La Revancha del Tango», dos Goten Project.
Se pretender algo mais erudito, «Maria João Pires, Verdes Anos, 1976-1985», onde interpreta de forma superior Bach, Beethoven, Chopin, Shumann e Mozart.
Para ler: «O Fogo e as Cinzas», de Manuel da Fonseca, editorial Caminho.
«Uma abelha na Chuva», de Carlos de Oliveira, Livraria Sá da Costa Editora.

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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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