Miguel Real, pensador e escritor de evidente versatilidade, surpreende-nos, de uma só vez, com três novos livros: «O último minuto na vida de S.», um episódio romanceado da vida de Snu Abecassis; um ensaio sobre «Agostinho da Silva e a cultura portuguesa»; e, por fim, um outro ensaio, intitulado «A Morte de Portugal» (Campo das Letras, 2007).

Jesué Pinharanda – Carta Dominical(Continuação do domingo anterior).
Em vista dos precedentes, Portugal tem conseguido superar todos os riscos, uma vez que, bem vistos os tempos e os modos, raramente nos foi dado descanso, sobre nós se abatendo a cobiça de estranhos, desde os árabes aos castelhanos, aos franceses, aos ingleses, e, por fim, na partilha do corpo da Pátria, americanos e soviéticos. Hoje podem ser os europeus, que nós também somos, embora arriscando a perda da portugalidade, caso não saibamos velar, vigiar e esclarecer o que valemos no contexto europeu. Aliás, Europa é, hoje em dia, um tratado de união e, como todos os tratados, não contém a potência de perpetuidade. É um fenómeno de conjuntura que pode terminar se, e quando, as maiores potências da «balança europeia» se confrontarem por causas de interesses específicos.
O conhecimento dos mitos, e também dos acontecimentos mitificados, constitui uma útil ajuda ao esclarecimento da nossa história, e da filosofia da História de Portugal.
No processionário da morte, Miguel Real abre com o que designa por «princípio do fim», a segunda morte de D. Sebastião, a perda da autonomia política, e o surgimento de uma independência mítica.
Miguel RealPelo caminho propõe-nos três luminares, ou entidades também elas de algum modo mitificadas: Viriato, como o nome das nossas origens; António Vieira como apologeta e profeta de Portugal como «nação superior»; e o Marquês de Pombal como o capataz de um «povo inferior».
Atravessamos agora o fim do princípio que nos aparece como uma fase experimental, cifrada em multiplicidade de abordagens e de tentativas de achamento da nossa alma, abordagens essas como exercícios isentos, como que descalços, atravessando as abrasivas areias do deserto, na esperança do oásis.
Miguel Real identifica, quanto aos pensadores pátrios contemporâneos, os espiritualistas, os providencialistas, os racionalistas e os modernistas. Em todas orientações identificamos o comum português ou o modo de olhar a Pátria, continuando divididos entre os optimistas e os pessimistas. Por vezes, confundimos Nação com Estado, quando, na verdade, a Nação pode não se esgotar no Estado e, com efeito, a Pátria, paradigma da Nação, é ente superior, que o Estado não esgota, mesmo quando nesse esgotamento aposte. Como agora!
Eis, pois, um ensaio que, entre pessimismo e optimismo, procura o senso do realismo com ideal. De resto, num estilo muito guloso, diremos até bem típico e, em muitas páginas, irónico e pitoresco, quanto aos modos de dizer. Talvez que a Raia nos separe, afinal de contas, da capital.
«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

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