Existem aldeias do concelho às quais me sinto pertencer e onde me movo como se sempre ali tivesse vivido, como mais um residente. Uma dessas aldeias tem o nome de Fóios. Gente hospitaleira, humilde e trabalhadora, irradia felicidade. Nos Fóios não existe rendição, abnegação ou conformismo. Gente reivindicativa e combativa, aqui a cidadania exerce-se na sua plenitude.

José Robalo – «Páginas Interiores»O meu amigo Zé Manel, o professor, é um autarca sempre com ideias e projectos a fervilhar na cabeça, planos para o bem-estar dos Fóios num permanente rodopio e inconformismo, idealizando e concretizando obras que se sucedem, colocando esta terra «do calcanhar do mundo» no mapa. O Zé Manel e os fojeiros são de facto um exemplo e modelo daquilo que podemos fazer na luta contra a adversidade e a exclusão a que aparentemente estamos condenados.
É verdade que esta aldeia tem uma situação invejável na raia de Espanha com relações pessoais e trocas comerciais que o Zé Manel com uma enorme diplomacia tem sabido cuidar e cultivar, com geminações e intercâmbios culturais com aldeias do lado de lá, medrando assim o bom relacionamento.
Os Fóios têm do seu lado a mãe Natureza, com a nascente do Côa, a Serra das Mesas, a Malcata, florestações a perder de vista e pastos naturais para os gados, o segredo para uma boa cozinha. Para se comer bem e em roteiro gastronómico pelo concelho, os Fóios são uma referência obrigatória, um ponto de encontro, de passagem ou de chegada. Para dar apenas um exemplo, o melhor coelho bravo que alguma vez comi foi preparado de forma superior no Lei Troncho.
Como apreciador de queijo, o melhor que alguma vez saboreei foi o queijo de cabra dos Fóios e de Vale de Espinho.
Esta zona foi sempre território de pastores, sendo o pastoreio uma das formas de sobrevivência destas gentes, razão mais que suficiente para vir até aos Fóios conhecer um destes heróis e homenagear a actividade.
Tem cerca de 70 anos e uma profissão herdada dos pais e avós. Os seus antepassados já eram cabreiros. O Ti Zé da Chão do Mando e o irmão Manuel são cabreiros.
Fui encontrar o primeiro de sacola a tiracolo, nos Antremontes, ou melhor Entremontes, mais um lugar paradisíaco nos Fóios. As cabras olham-nos com a desconfiança de quem não gosta de intrusos na pacatez da sua rotina.
Diz-nos que no Verão fazem uma espécie de transumância ao mesmo tempo que com o cajado nos indica a direcção da serra das Mesas a nascente do Côa, explicando que vão até aos Canchais junto à Raia de Espanha, «onde há sempre água muito fresca e onde antigamente os pastores ordenhavam as cabras para as poças dos barrocos: – migavam o leite e consumia-se directamente este leite fresco.»
Vem-me então à memória a cabra Almateia que alimentou Zeus enquanto criança no monte Ida, com o seu próprio leite e que após a sua morte, Zeus usou a sua pele para combater os Titãs.
Diz-nos o nosso interlocutor: «Comia-se no campo onde se assavam batatas, pimentos e tomates. Nesse tempo vinham aí as espanholas e trocávamos batatas por figos.»
Diz-nos «que o gado come o que quer nos lameiros. Gosta de roer.»
Numa conversa animada, pergunto-lhe se conhece as cabras todas. «Claro que sim, todas, mas de admirar é elas conhecerem-me a mim.»
FóiosEspanta-me a capacidade deste cabreiro, porque tenho alguma dificuldade em reconhecer fisionomias. Imagino a minha dificuldade se tivesse que reconhecer cabras!
Está demonstrado cientificamente, que as cabras têm uma grande capacidade de reconhecimento. Passou-me pelas mãos um trabalho científico de uns investigadores ingleses, onde se garante que as cabras têm capacidade para memorizar até cinquenta pessoas diferentes.
A pastorícia pode ser boa fonte de rendimento para esta gente que deverá ser apoiada e acarinhada. Do lado de lá, na Serra da Gata, produz-se um queijo de cabra com denominação de origem protegida com grande projecção junto dos apreciadores, a que não se pode ficar indiferente.
Preservar estas raças autóctones boas produtoras de leite, conseguindo no final do circuito um queijo autêntico de qualidade e paladar superior, são causas mais do que suficientes para reconhecer e enaltecer esta actividade e a vida de pastor.
O segredo da qualidade da carne e do queijo reside na especificidade dos pastos e na raça dos animais, exigindo-se a protecção e apuramento da espécie, aproveitando-se plenamente as ajudas comunitárias que aí estão. Neste país, estas ajudas à agricultura ainda estão muito mal divididas, umas vezes por falta de informação e outras porque aqueles que recebem os maiores apoios nem se dedicam agricultura, tornando-se em verdadeiros subsídio dependentes. Se houvesse um maior atenção e conhecimento de causa para afectar incentivos talvez fosse possível entusiasmar os mais novos a dedicarem-se a esta actividade tão nobre e assim fixar gente no interior.
Com a extinção das raças autóctones, desaparecem as pessoas.
O pastoreio corre pelas veias do amigo Zé da Chão do Mando.Com gestos e assobios especiais as cabras param e olham-no, o que me leva de imediato à pergunta: Entendem o seu assobio? «Claro que sim, com este assobio disse-lhes que fiquem onde estão. Também lhes posso assobiar para virem ter comigo.»
Digo-lhe que o meu avô materno depois de ter combatido ao lado de Afonso Costa na implantação da República e após ter conhecido Argentina e o Brasil, também foi pastor. Lembro-me que, no Verão, quando o calor apertava, os animais recolhiam para as sombras dos currais, voltando a sair ao fim da tarde.
«Aqui não, as cabras andam no campo todo o dia, quer seja Inverno, quer seja Verão. É preciso gostar disto. Eu gosto, não sou homem de cafés. Prefiro andar por cá, do que estar no povo.»
Pergunto-lhe como passa o tempo durante todo o dia, sozinho: «Aqui sinto-me como um leão, gosto disto, sinto-me feliz, ando enredado nos meus pensamentos, na companhia do cão Piloto.»
De alguma forma sinto uma espécie de inveja saudável da vida deste pastor, porque o pior na vida não é perder o tempo, mas não ter tempo para perder.
«Quem diria que hoje compartiria a minha merenda consigo e com o senhor professor», afirma quase incomodado por existir. É assim esta gente simples e honrada da raia.
Abandono os Fóios, já com saudades do lugar, guardando na memória de caminhante o sabor inconfundível do melhor queijo de cabra do mundo.

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Sugestões para o fim-de-semana:

Para ouvir, a música que me acompanhou até aos Fóios: «Miles Davis & John Coltrane, The complete Columbia Recordingds 1955-1961», na minha opinião o melhor trompetista de sempre e o melhor saxo tenor. Explosivo.
Para ler: «O lobo das estepes», de Herman Hesse, prémio Nobel de Literatura.

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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
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