O Carnaval, ou Entrudo, tornou-se, por influência da cultura afro-brasílica, numa indústria. Instituições locais, por via de regra apoiadas pelas autarquias, investem milhares na organização do Carnaval, de certeza absoluta como forma de atrair turistas e de animar a vida comercial.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalE, no entanto, embora o Carnaval seja uma festividade colectiva, ela foi sempre o produto de criatividade, de espontaneidade e de liberdade individual, permitindo aos foliões e chocarreiros manifestarem as suas capacidades histriónicas.
O Entrudo rural vivia-se fora de organizações turísticas. Entre domingo Magro e Domingo Gordo, a mocidade aldeã procedia às matracas, acusações satíricas dirigidas, já noite, às raparigas, aumentando o volume da voz com um funil dos grandes. Por via de regra, as acusações não eram graves. Simples momices, a uma por ser gorda, a outra por ser sonsa, e coisas semelhantes. No Entrudo vale tudo.
Máscaras IbéricasDomingo Gordo, quem tinha ou podia comprar, comia carne. Aliás, Carnaval é uma corruptela da expressão latina carne valet, através do italiano carnavale. Tempo carnívoro, que assinala a entrada (Intróito, Entrudo) num ciclo de paz e de sossego, fora dos momos e fantasias carnavalescas. Também no Domingo Gordo, pelo menos, no largo da aldeia armava-se o baile (balho) e a rapaziada lá conseguia juntar uns tostões para mandar vir o acordeonista. Quanto a momices públicas, aparecia um outro folião que, travestido, ou mascarado, dava uma volta ao povo.
A máscara é peculiar ao Nordeste transmontano, mas também aqui parece haver uma industrialização. O habitual era a máscara (de pau, de lata, de palha…) passar de pais para filhos, como que parte de um dote patrimonial. Hoje em dia é possível comprar máscaras tradicionais nordestinas durante todo o ano, embora nas aldeias só sejam usadas no ciclo inverniço, entre o Natal e o Carnaval.
Hélder Ferreira e António Pinelo Tiza e outros, juntaram-se e produziram um belíssimo álbum fotográfico intitulado «Máscara Ibérica», cuja introdução nos foi grato escrever. Seria interessante se alguém, da nossa Raia, investigasse a eventual existência de máscaras carnavalescas antigas. Não nos referimos às que é uso e costume comprar nas lojas nesta época. Aludimos às históricas e, possivelmente, associadas a ritos de iniciação.
«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

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