À estratégia militar da terra queimada e à putativa objectividade de estudos e rigor científico onde a premissa encerra em si a conclusão não há política que resista. O Sabugal com 60 por cento do território integrado na «Rede Natura» é o concelho com melhor qualidade para se viver e para se ser velho e criança, por existir uma invejável rede de apoio à terceira idade e às crianças.

José Robalo – «Páginas Interiores»Corria o dia 21 de Julho do ano 356 a.c., quando Eróstrato decidiu incendiar o templo dedicado à deusa Artemisa em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo, tentando assim perpetuar o seu nome pela eternidade.
Alguns dos pirómanos que incendeiam o País, transformando-o num braseiro nos meses de Verão, no mais profundo do seu íntimo também pretendem à sua maneira, ter o prazer de nos obrigar assistir a esse espectáculo desolador a que dão causa, sendo isso que lhes dá gozo.
Os soldados napoleónicos, sofreram pesadas derrotas aquando da invasão da Rússia, na sequência da táctica militar que se designa por terra queimada. Os soldados russos em fuga, deixavam atrás de si a destruição, queimando tudo à sua passagem. Sem possibilidades de se reabastecerem as tropas de Napoleão soçobraram e foram vencidas pela fome e pelo frio. A esta estratégia militar não há política que resista.
Vem tudo a propósito de um estudo de putativa objectividade e rigor científico até porque foi divulgado sob a chancela da Universidade da Beira Interior e que coloca o Sabugal, como o pior lugar do País para se viver.
Apesar de não ser a minha área, sempre direi que a partir do século XIX, as Ciências Sociais, com o positivismo, foram pugnando por utilizar métodos científicos, tentando analisar e explicar cientificamente a realidade que é o objecto do seu conhecimento. A ciência pratica-se com seriedade!
Apesar de me considerar um cartesiano que acredita que todo o fenómeno tem uma causa explicativa e que o nosso intelecto tem que encontrar explicações para a realidade que nos circunda, até para sermos mais felizes, não acredito em estudos que partem de premissas ou dados viciados, qual silogismo aristotélico onde a premissa encerra em si a conclusão.
É assim de duvidosa validade científica aquele exemplo de escola, que afirma «Todos os homens são mortais. Eu sou homem. Logo sou mortal».
Castelo do Sabugal e Rio CôaReportando-me ao estudo, conclui-se que no Sabugal existe insegurança, porquanto (os números são aleatórios) cerca de 60 por cento da criminalidade denunciada é contra as pessoas, isto é, dos crimes participados no ano de 2004, 3 em cada 5 são crimes de ameaças e crimes contra a integridade física. No Barreiro por exemplo, a percentagem participada destes crimes é apenas de 1 em cada 5, razão pela qual se conclui que é mais seguro viver no Barreiro do que no Sabugal! Não interessa a quantidade dos crimes nem a sua violência. Porque matemática é matemática, teremos de concluir que a cidade do Barreiro é a 4.ª melhor cidade do país para se viver pelo seu sossego e tranquilidade e que o Sabugal é a pior entre outros, pelos seus elevados indicadores de violência contra as pessoas.
Esquecer que o Sabugal tem cerca de 60 por cento do território em Rede Natura, que tem um ar respirável e de qualidade, que não tem problemas de trânsito, que tem equipamentos sociais de qualidade e em quantidade para apoio à 3.ª idade, às crianças e juventude, que cerca de 90 por cento do concelho se prepara para ter saneamento básico, 100 por cento com fornecimento de água ao domicílio, que tem património natural e construído com 5 castelos, toda a população servida com estradas municipais, onde os dinheiros são gastos com rigor, é subestimar estes indicadores que falam do conforto e bem estar das populações.
Estas sim, são razões mais do que suficientes para se poder concluir que o Sabugal é o melhor concelho para se viver e para se ser velho e criança, por existir uma rede de apoio à terceira idade e à infância invejável; acresce que muitas destas instituições funcionam com o empenho e voluntariado de muita gente, que o faz pelo prazer e verdadeiro espírito altruísta e de servir os outros.
Enquanto responsável da ADES (Associação de Desenvolvimento do Sabugal), cargo que desempenhei durante três anos de forma totalmente desinteressada, pretendemos criar uma sociedade financeira com capitais do Sabugal e dos sabugalenses que nos permitisse estar em condições de em parceria com o município, investir em projectos como as termas do Cró na sua componente privada. Contactámos e reunimos com o responsável do famigerado estudo, por ser economista e sabugalense, mas até ao momento tal estudo nem a disponibilidade para o fazer apareceu. Onde está o nosso bairrismo senhor professor?
No Sabugal muito está por fazer, porque somos por natureza pessoas inconformadas e com uma vontade indómita de mudar o mundo e temos especial prazer de viver longe desse tumulto vazio, que é característico das cidades que ocupam o topo da lista.
Eróstrato ignorava que a imortalidade é uma prisão da qual nunca nos conseguiremos libertar.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

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