Na Grécia antiga o bravo ateniense Teseu, filho do rei Egeu, desafiou e venceu o Minotauro que habitava nos labirintos do palácio de Minos na ilha de Creta. Na raia sabugalense a capeia arraiana com forcão é uma forma superior de bravura deste território único. Este fim-de-semana as atenções estão viradas para Aldeia do Bispo com um variado e colorido programa que inclui desfiles carnavalescos, encerros, desencerros, capeia e o almoço da Confraria do Bucho Raiano.

José Robalo – «Páginas Interiores»Na Grécia antiga, na ilha de Creta reinava um poderoso soberano chamado Minos, que residia num lendário palácio concebido pelo arquitecto Dédalo. No labirinto do palácio habitava o monstro Minotauro com cabeça de touro e corpo de homem, que jamais se saciava de carne humana, labirinto tão intrincado que se alguém nele ousasse entrar jamais dele sairia. Cada três luas o Minotauro percorria a ilha e devorava os pobres cretenses, semeando o terror, saga a que se pôs termo com o sacrifício de jovens atenienses; um dia, o ateniense Teseu, filho do rei Egeu, num acto arrojado ofereceu-se para combater o monstro e caso o vencesse poria por seu lado, fim ao sacrifício dos atenienses. A pitonisa previu a sua vitória desde que fosse amparado pelo amor. O Rei Egeu, preparou então uma expedição comandada por Teseu, num barco adornado de velas pretas, com o pedido explícito de colocar velas brancas no regresso, caso a expedição tivesse sucesso.
Ariadne, filha do rei Minos amparou Teseu com o seu amor, entregando-lhe um novelo de fio que deveria atar no início do labirinto para poder regressar e uma espada mágica, para combater o Minotauro. Teseu que para os atenienses atingiu em façanhas a nomeada de Hércules, conseguiu vencer o monstro e regressar a casa, mas com a euforia da vitória esqueceu-se de alterar o colorido das velas como havia prometido. O pai ao avistar ao longe a expedição, com as velas pretas, convencido da morte do filho, deitou-se ao mar onde se afogou. Para testemunhar este fatídico episódio ainda hoje as águas que banham essas ilhas têm o nome de mar Egeu, o berço do mundo grego.
As origens das nossas capeias acordam reminiscências deste mito. Diz-se por aqui, que inicialmente o forcão serviu para os rapazes da raia defenderem a população das investidas dos touros bravos que em liberdade se apascentavam nos campos charros e que invadiam as nossas terras, semeando o pânico. Numa segunda fase, o forcão converteu-se no objecto lúdico e de recreio que hoje conhecemos.
Tenho orgulho no concelho a que pertenço e quando olho à minha volta, mais aumenta esse orgulho e a sensação de que este território é único com pessoas, tradições, lugares, património e uma vontade única de sempre ambicionar por mais bem estar e desenvolvimento, num permanente inconformismo.
Apesar de ter nascido numa aldeia ribeirinha do Rio Côa tal aconteceu do lado leonês, (País llïonés), razão pela qual me sinto profundamente raiano. A raia sabugalense é um estado de espírito e uma forma de estar. Como bom raiano que me considero gosto de touros, cavalos, capeias e do toureio a pé. Como diz José Tomás, o diestro que mais admiro e aprecio, «Vivir sin torear, no es vivir» e podemos afirmar com segurança: sem capeias a raia sabugalense não seria a raia.
Carnaval em Aldeia do BispoNo Domingo Gordo em Aldeia do Bispo, o programa é preenchido na íntegra com touros, na tradicional capeia de Carnaval e correspectivos encerros e desencerros.
As capeias quase criam um território dentro do território, tal o frenesim das pessoas da raia pelos touros, forcão, encerros e desencerros. A capeia com forcão é uma forma superior de arte e quando o touro tem bravura, trapio, casta, nobreza, se fixa no engano e não sai solto, nada melhor do que uma valsa de Strauss, uma sinfonia de Beethoven para acompanhar os movimentos estilizados de 30 rapazes que com bravura enfrentam o animal «de poder a poder».
Vem tudo a propósito do Carnaval que se avizinha e que em Ciudad Rodrigo com o impulso do Ayuntamiento local, é uma festa que reveste atractividade nacional, no formato assumido de Carnaval del Toro. No concelho do Sabugal a primazia vai para Aldeia do Bispo, «a Princesa da Raia», que tem um corso carnavalesco já com algum interesse, onde os foliões desinibidamente podem desfilar, acompanhadas de tamborileiros, disfarces e gigantones, numa iniciativa da Junta de Freguesia e associação locais, a que a população adere significativamente.
Porque estamos no Domingo Gordo, dia em que tradicionalmente se comem as iguarias resultantes da matança do porco e uma vez que se avizinha a Quaresma com jejum e abstinência, a Confraria do Bucho Raiano decidiu em boa hora, organizar um almoço em honra deste pitéu no restaurante Xalmas em Aldeia do Bispo. Para participar neste evento é necessária uma inscrição prévia.
Estão assim reunidos todos os condimentos para Aldeia do Bispo ser a capital do Carnaval. A folia é a palavra de ordem.
Eufóricos com toda esta lufa-lufa, andam os dois únicos toureiros profissionais que a raia criou e ainda vivos. Estou naturalmente a referir-me ao Fernando Gregório, picador de touros e ao matador Zé Carlos «Gravatas», ambos naturais de Aldeia do Bispo, duas figuras consagradas do toureio a pé, com traje de luces, que quais D. Quixote e Sancho Pança, têm mais medo dos touros do que quem escreve estas linhas, que nunca teve a coragem de entrar numa arena.
Bons Carnavais.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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