A Sociedade Filarmónica Bendadense foi fundada em 1870, por António Nunes da Fonseca Faria, primeiro professor primário da Bendada. Sendo a única do concelho do Sabugal, possui 32 elementos, na sua maioria muito jovens, que ao sábado transformam a Bendada num espécie de reino de Orfeu com a música a sair de todas as casas.

José Robalo – «Páginas Interiores»A música ocupa um lugar primordial no espírito humano. São muitos os estudos que concluíram que existe uma relação directa entre a audição de boa música e o desenvolvimento das nossas capacidades intelectuais e boa disposição. Parece que até os animais e plantas melhoram o seu rendimento e crescimento, em contacto directo com a música. De uma forma ou de outra todos nós somos melómanos e é já quase um hábito no dia de Ano Novo, assistirmos em directo via TV ao concerto de Ano Novo da Orquestra Sinfónica de Viena culminando a alegria e boa disposição com a Marcha Radetzky.
Na mitologia grega, Orfeu era o cantor por excelência, músico e poeta, tendo sido seleccionado para participar na expedição dos Argonautas, não pelos seus dotes físicos, até porque não tinha forças suficientes para ser remador, mas pela sua voz que ao cantar definia a cadência dos remadores.
Consta-se que nesta expedição, Orfeu foi ainda muito útil para sobrepor o seu canto ao das Sereias que como se sabe, pretenderam seduzir os argonautas. Tal não veio acontecer graças à intervenção melodiosa de Orfeu, uma vez que o seu esplendor musical superou em doçura o canto das sereias. Acredita-se que após a morte de Orfeu a sua lira de nove cordas (tantas quantas as musas), foi levada para o céu, transformando-se numa constelação.
Habitando os Campos Elísios, local reservado aos deuses, diz-se que Orfeu em vida tocava melodias tão suaves, que as árvores e demais plantas se inclinavam na sua direcção. Diz-se ainda que a sua música acalmava até o coração dos homens mais rudes e insensíveis.
Partindo da Guarda pela Estrada Nacional em direcção ao Sabugal, na Catraia do Sortelhão, toma-se o caminho agrícola à direita na direcção da Quinta da Erva, Quinta de Santo António e Quinta da Ribeira até se chegar à sede da freguesia da Bendada, atravessando uma paisagem lunar, assombrosa e de cortar a respiração. A Natureza no seu esplendor!
BendadaNuma tarde de sábado, chegados ao largo principal da freguesia de supetão, invade-nos a sensação de nos encontrarmos no reino de Orfeu, uma vez que a música sai de todas as casas. Entramos num espaço que no exterior indica ser a sede da Sociedade Filarmónica Bendadense, onde com alguma vaidade, se pode ler que foi fundada em 1870.
Deparamos com uma turma de crianças que estão a postos para uma aula de formação musical. O professor e amigo Luís Andrade que ao mesmo tempo é ensaiador e mestre da Banda Filarmónica da Bendada, recebe-nos e mostra-nos a exiguidade do espaço dizendo: «É muito difícil trabalhar nestas condições. Não temos espaço e os meios são escassos. Só com muito amor e carolice é que se consegue trabalhar. Aqui o dinheiro é contado ao cêntimo», indicando-nos um placard na parede onde estão afixadas todas as contas. «Como podes verificar as contas estão aqui expostas e só com muito rigor se consegue trabalhar. É muito difícil. Como motivar um jovem a integrar a banda filarmónica, se com ensaios e actuações numa festa religiosa ganha cerca de 20 euros, privando-se do convívio dos amigos nos dias festivos?»
O Luís Andrade é professor de música, no ensino oficial e vai-nos desfiando com algum orgulho uma panóplia de gente e de nomes que neste momento se encontra ligada à música e faz disso profissão, tendo-se iniciado na Sociedade Filarmónica Bendadense. Estão aqui os músicos do futuro», ao mesmo tempo que indica para aquele grupo de crianças, que com pontualidade, aos sábados acode às aulas de formação musical.
Mais acima e já no exterior num local bem centralizado está o coreto onde a Filarmónica apresenta os seus concertos e que foi objecto de obras de recuperação recentemente. Ao penetrarmos no seu interior, vamos encontrar os jovens mais velhos a ensaiar.
Do interior deste edifício a música sai por todos os poros, mais parecendo que aqui se encontra o túmulo do nosso Orfeu. O Presidente da Sociedade Filarmónica, o jovem professor de música Filipe Fernandes de seu nome diz-nos: «Para ensaiar aproveitamos os sábados, que é quando todos podemos, visto que a maioria dos músicos são estudantes. Ensaiamos numa sala, pertencente ao edifício do Centro de Dia da Casa do Povo da Bendada, tendo sido cedida à Banda enquanto esta existir. Em contrapartida a Escola de música tem cerca de uma dezena de crianças na iniciação à música, servindo de retaguarda à banda e prepara-mo-las para no futuro a integrarem, se essa for a sua vontade.»
Esta escola dá ainda formação aos mais velhos para aperfeiçoarem individualmente o instrumento eleito que pode ser saxofone, clarinete, trompete ou trombone.
O que impressiona nesta gente jovem é o entusiasmo, com que se entregam a esta causa, por amor à música, sem apoios e ocupando o seu tempo com coisas úteis e agradáveis. Este projecto atrai gente das povoações vizinhas como as Caldeirinhas e Trigais, existindo para o efeito uma carrinha propriedade da Sociedade Filarmónica para transportar toda esta juventude de forma gratuita, sendo certo que toda esta actividade em serviço de voluntariado, tem muitas despesas. No entanto, é toda esta juventude que garante a sobrevivência e continuidade desta colectividade, que é tão só uma das mais antigas do concelho, estando para breve a celebração dos 140 anos.
Quando perguntamos ao Filipe, o que gostaria de receber como prenda, a resposta não se fez esperar: «Gostaríamos de ter um espaço para uma sede tendo já adquirido um terreno para o efeito há algum tempo pela banda e no dia do aniversário colocar a primeira pedra, com ajuda de todos. A Sociedade Filarmónica Bendadense foi fundada em 1870, por António Nunes da Fonseca Faria, primeiro professor primário da Bendada. Inicialmente a Banda dava mais importância à música vocal. Sendo a única do concelho do Sabugal, possui 32 elementos, na sua maioria muito jovens. O repertório é actual e bastante diversificado.»
Saímos da Bendada divididos pelo sentimento de satisfação por vermos uma colectividade a trabalhar com este entusiasmo, com base em tanta juventude. No entanto, com um profundo sentimento de tristeza, por sentirmos que esta juventude deveria ter mais apoio e que seria de inteira justiça que esta colectividade tivesse aquilo que tanto ambiciona: uma sede onde ensaiar com condições de acústica necessárias, guardar equipamento e organizar actividades. Acredito que o Ministério da Cultura através dos meios disponíveis será sensível a toda esta dinâmica e que justamente abrirá uma janela para esta agremiação.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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