No final do século XIX, aí por volta dos anos de 1890-1895, existiu em Aldeia da Ponte uma Banda de Música, que percorria as redondezas, actuando nas festas religiosas, inclusive, com algumas incursões em Espanha.

Esteves Carreirinha - Ecos da AldeiaAldeia da Ponte teve a fortuna de ser dotada de variados artistas, que cultivavam a música, formando a tal banda, bastante conceituada e solicitada. Estamos em crer que não seria fácil, à época, mas o que é certo, é que a carolice, a vontade e a arte de uns quantos, levou por diante este agrupamento de artistas, representando a nossa Aldeia por tudo o que era sítio.
Quando se deslocavam um pouco mais longe, sempre a pé, não havia carros, tinham que sair um ou dois dias antes, afim de chegarem a tempo de honrar o compromisso assumido. Pelo caminho, era uma paródia daquelas e, lá iam entrando nas tascas, petiscando e bebendo o seu copito, para ajudar a retemperar as energias, que bem precisas eram, pois alguns instrumentos exigiam grande esforço, como é bem sabido. Os músicos que o digam.
Acontece que num belo dia de festa em Casillas de Flores, lá foram os nossos músicos, calcorreando o longo caminho de terra batida, para se apresentarem na tal dita cuja.
Segundo relato dos mais antigos, a banda começou a tocar uma música religiosa, na igreja, mas depressa se desviou para uma outra música portuguesa, as Carvoeiras, muito em voga nessa altura, mandando às malvas a orientação do Maestro, para espanto dos espanhóis, que não queriam acreditar no que estavam a ouvir e a presenciar. O Maestro bem tentou corrigir este «desvio», mas qual quê, os músicos estavam embalados e, só a muito custo, lá os conseguiu parar. Furioso com este incidente e, para castigo, apenas escolheu uns poucos, para acompanharem a procissão religiosa.
Banda de MúsicaDecorria muito bem a procissão por «el pueblo de Casillas», quando já próximo da igreja, numa rua a descer, azar dos azares, um dos nossos amigos músicos da retaguarda tropeçou, caiu e, com a sua queda, arrastou quase todos os outros, fazendo perder a paciência aos espanhóis, que já tinham suportado a troca de músicas, no início da cerimónia, entornando-se o caldo e, foi um ver se te avias, toca de afugentar os nossos músicos em direcção a Portugal, à nossa Aldeia.
Com mais um ou outro pormenor, assim ficou retratada a actuação da nossa Banda de Música, na ida a Casilhas de Flores.
Esta é uma deliciosa história que aconteceu, fruto da irreverência dos jovens músicos, que para além da sua arte e sabedoria a tocar, eram danados para as brincadeiras, juntando farras e outras partidas, pese embora os nossos amigos espanhóis tenham ficado furiosos pois, nestas ocasiões de desventura onde algo não corre como o esperado, as más novas propagam-se depressa, como é habitual nos infortúnios.
Este desgraçado episódio não serviu para manchar muitas outras actuações brilhantes dos afamados músicos de outrora, por onde tiveram a oportunidade de passear a sua arte de manusear os instrumentos. De contrário, logo se saberia, se mais alguma outra manifesta «desgraça» lhes tinha acontecido, o que abona, por demais, em favor da Banda de Música de Aldeia da Ponte de há dois séculos atrás.
Tentaremos, caso seja possível, se mais lembranças dos nossos antigos surgirem, voltar à nossa Banda de Música com mais algum eventual episódio.
«Ecos da Aldeia», opinião de Esteves Carreirinha

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