A Casa do Castelo recentemente inaugurada na zona histórica do Sabugal já é ponto de passagem obrigatório no roteiro cultural da cidade. Guardada pela torre das cinco quinas podemos encontrar no seu interior o altar judaico e a ara romana que são motivos mais do que suficientes para fazermos uma visita ao espaço gerido por Natália Bispo.

José Robalo – «Páginas Interiores»Dos diferentes judeus que conheço, concluo que são gente maravilhosa. Se analisarmos a história do pensamento e das ideias verificamos que nenhum outro povo contribuiu tanto para o desenvolvimento da história da humanidade, apesar de ser uma pequena comunidade, comparativamente com outras. Se elaborássemos uma lista com o nome dos maiores cientistas, músicos, filósofos e inventores, concluiríamos que a percentagem de judeus é impressionante. Não será despiciendo afirmar, que no universo de valores dos judeus, o espírito e as descobertas científicas ocupam um lugar primordial, dando sempre primazia à arte e ao pensamento.
Acreditando como acredito que não existem raças, até porque está demonstrado cientificamente que não existem diferenças genéticas entre pretos e brancos, entre árabes e judeus, é evidente que a superabundância de génios judeus resulta de factores educacionais, morais e circunstanciais, atendendo ao seu cosmopolitismo e por estarem espalhados por todo o mundo, os judeus são ao mesmo tempo judeus e portugueses, judeus e alemães, judeus e franceses.
Este povo foi perseguido e vilipendiado, é o povo da diáspora, sendo que em Portugal apesar da ferocidade da Inquisição, na Idade Média e após a extinção do Santo Ofício, houve alguma tolerância com os judeus, embora sempre considerados como raça inferior. Os cristãos novos e os marranos são tão – só a face de uma mesma realidade, que culminou no criptojudaísmo.
Belmonte tem uma comunidade judaica bastante extensa sendo tida como exemplar a nível nacional. Naturalmente que esta comunidade não se fixou apenas em Belmonte tendo-se expandido por todo o território que é hoje a Beira Interior, nomeadamente o Sabugal e Penamacor onde foi figura de proa Ribeiro Sanches, um judeu perseguido em Portugal e médico ilustre nas principais cortes europeias do seu tempo.
Com a expulsão dos judeus na vizinha Castela pelos reis católicos em 1492, muitos deles demandaram na diáspora os territórios de fronteira, sendo que nessa data por exemplo a população triplicou em Belmonte.
Embora não possuindo dados e estudos em relação ao Sabugal nesta matéria, estou em crer que muitos se fixaram por aqui e que a população do Sabugal, também terá aumentado substancialmente.
Recorde-se que o nosso rei D. Manuel I assinou o decreto de expulsão dos judeus, em 1496 proibindo e reprimindo o judaísmo, seguindo o exemplo dos reis católicos e converteu à força milhares de judeus através do baptismo num processo que ficou conhecido por cristãos novos.
Casa do Castelo no SabugalNo entanto, o apego deste povo à religião e o seu espírito de sobrevivência aguçou-lhes o engenho e arte dissimulando as suas práticas religiosas, protegendo-se assim, do ambiente hostil onde estavam inseridos. A mezuzáh de bolso é uma prova disso mesmo. A mezuzáh era inicialmente colocada à entrada de todas as portas na parte traseira dos umbrais, do lado direito, com um pergaminho que continha duas passagens da Torá cumprindo-se assim os mandamentos do Deuteronómio (6:4-9 e 11:13-21). Com o tempo esta mezuzáh e por necessidade foi adaptada para ser transportada no bolso cabendo na palma da mão, forma expedita dos criptojudeus cumprirem os rituais religiosos sem serem incomodados e fugirem às perseguições.
Natália Bispo é uma natural e residente no Sabugal, com um dinamismo e capacidade de intervenção ao nível da comunidade em que está inserida, fazendo-o de forma exemplar. O amor à sua terra levou-a a abrir um espaço na zona histórica e envolvente ao Castelo, a Monumenta que para além de ser um local aprazível para se tomar um café ou uma refeição numa roda de amigos e da família é um pequeno museu repositório da nossa memória histórica.
No centro de toda esta obra de arte encontra-se um altar judaico que foi achado por acaso nas obras de recuperação do edifício, uma vez que estava dissimulado entre dois muros, o que comprova à saciedade que no Sabugal também viveram criptojudeus e cuja comunidade deveria ser extensa uma vez que dispunham de meios para celebrarem os seus cultos.
Refere-nos a sua proprietária: «É impressionante o interesse que a Casa do Castelo está a despertar em quem nos visita, muito mais no sentido cultural querendo observar o Altar Judaico e a Ara Romana, relegando para segundo plano o aspecto comercial da Casa.»
Esta Casa do Castelo com abertura há escassos meses, já está a ser uma referência cultural, no Concelho de Sabugal.
Com orgulho e alguma apreensão natural a Talinha vai dizendo: «No livro de honra que a Casa tem à disposição, são deixados testemunhos que provam que este projecto está a ser uma mais valia para a nossa cidade; como proprietários estamos orgulhosos, mas também preocupados, porque não é fácil de gerir um projecto com estes moldes.»
Cripto é um prefixo de origem grega que significa secreto, oculto. Os criptojudeus eram todos aqueles que em público praticavam actos religiosos próprios do catolicismo, como ir à missa, baptizar os filhos, mas que em privado praticavam os rituais ancestrais da religião judaica. Como não havia sinagogas, nem livros, a religião e rituais religiosos passavam de geração em geração de forma oral, o que com o tempo criou um outro judaísmo, distante do normativo, criando-se assim quase uma religião própria, com rituais cristãos em público e rituais judaicos em privado, numa eterna vida paralela.
Com alguma segurança podemos afirmar que o criptojudaísmo se foi quase transformando numa nova religião.
Os elementos de que dispomos embora sendo escassos por não ser nossa tarefa investigar esta temática, leva-nos a concluir que no Sabugal, Sortelha, Alfaiates e Vilar Maior existiram comunidades judaicas com alguma importância, sendo certo também que estas comunidades dispunham de alguma organização económica. Em Vilar Maior, temos conhecimento da existência de uma mezuzáh, símbolo da purificação numa casa particular bem como de um pavão desenhado num armário de pedra, símbolo judaico da fertilidade.
O Município de Belmonte apostou na organização do museu judaico com alguma importância e em boa hora o fez, uma vez que tem uma média anual de 14000 visitantes a pagar. Como território limítrofe a esta realidade e com vestígios da passagem e fixação dos judeus pelo Sabugal, não será o momento de nos reconciliarmos com a História e colocar o Sabugal envolto nesta temática?
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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